Belgrado 2006 . parte I . “Cruzando o Danúbio Azul”

Quando chegamos a Belgrado de trem, vindo de Bucareste, era por volta das 10h da manhã, e só tínhamos a reserva do albergue (um pouco afastado do centro, mas numa vizinhança tranqüila cheia de casas) e telefones dos meus contatos aqui. Não sabíamos mais nada a respeito da cidade. Tudo que conto a partir de agora foi o que aprendemos aqui. Vários guias e colegas tinham feito alertas sobre os táxis daqui, que – como na maioria das cidades – às vezes enganam estrangeiros, cobrando 200 vezes o valor da corrida normal. Mas na Sérvia isso tem outro motivo: muitos vêem os estrangeiros (a despeito do país de origem) responsáveis por toda a dor e crise sofridas pela nação. E, em parte, têm razão.

A ferrovia, depois de cruzar a ponte sobre o Danúbio (caramba, é realmente azul, e em qualquer lugar), faz um estratégico contorno tendo à direita o rio e à esquerda as muralhas e torres da fortaleza do Kalemegdan. A visão de paisagem turística é fascinante e lembra a imagem jobiniana dos aviões que dão a volta no Corcovado e Pão-de-Açúcar para pousar no Santos Dumont. É lindo.

Na cabine ao lado, um grupo de seis jovens sérvios cantava alguma canção patriótica voltados para a janela.

No primeiro dia, andamos a tarde toda a esmo, e tivemos a sorte de ir parar exatamente onde queríamos. Esta é a primeira cidade a que chego onde não há metrô. A maioria dos bondes (tramvai = tramway) e dos ônibus (trolej = tróleis, trolley) é bem antiga, datando dos anos 1950 ou 1960 e nunca reformada. Parte dela foi destruída em combates e bombardeios. Poucos anos atrás, no entanto, o governo do Japão doou uma frota nova de ônibus convencionais, o que melhorou um pouco a situação – os novos são amarelinhos e trazem a inscrição “Presente do povo japonês para a cidade de Belgrado”.

Saltamos na Trg Republike (Praça da República), onde ficam os principais museus e centros culturais, e andamos a rua Knez Mihailova (Príncipe Miguel), só de pedestres, onde há inúmeros cafés, livrarias, confeitarias (pekara), e lojas de roupas tanto de marcas locais quanto de grifes estrangeiras (Zaras, Lacoste, etc.). Por causa do baixo valor do dinar (a moeda sérvia), a maioria dos preços é mais baixa que no “ocidente”, mas eu comparei e achei que quase tudo está na média do Brasil. Comprei um dicionário de bolso Servo-Croata – Português (e vice-versa) por 495 dinares, ou 17 reais.

Encontrei CDs do Goran Bregović, o compositor pop/rock que faz as trilhas dos filmes do Emir Kušturica, pelo equivalente a menos de 15 reais cada. Já os CDs das bandas altie/indie que nunca chegam ao Brasil estão lá também, mas por um preço bem mais alto (de 30 a 50 reais).

E sorvetes. Gigantescas casquinhas e bolas de sorvetes dos sabores mais sofisticados, por uma ninharia, em quiosques instalados em cada esquina.

Chegando ao final da rua, entramos num parque, sem saber exatamente aonde íamos. Na aléia principal, velhinhos e veteranos de guerra vendem medalhas, broches, bótons, pins e distintivos das instituições militares e civis da Iugoslávia – igual à feirinha da Praça XV, só que direto dos ex-donos. Muitos retratos do Tito em todos os lugares. O povo daqui tem orgulho dele – quando não saudade. Não é como os tchecos, que só relembram o passado socialista pra vender souvenires, ou os romenos, que sentem vergonha do Ceauşescu. Os sérvios admiram o marechal que não vêem como ditador, mas como líder e herói de guerra, e parte deles ainda se recusa a aceitar o fim da Iugoslávia.

Andando um pouco mais, fomos vendo que estávamos indo exatamente em direção ao castelo fantástico que tínhamos visto do trem. Era o Kalemegdan – não por acaso, o primeiro ponto que vimos da cidade quando chegávamos de trem.

O Kalemegdan é uma fortaleza que foi construída pela primeira vez antes dos romanos, no século III a.C., e depois reerguida pelo imperador bizantino Justiniano em 535 d.C.. A maior parte do castelo está em ruínas, principalmente as muralhas, mas um trecho considerável parece intacto. Isso seria normal, se não fosse o fato de o Kalemegdan (cujo nome significa, em turco, “forte entre campos de batalha“) ter sido USADO, ou seja, atacado e defendido a cidade e a Sérvia das investidas seguidas de romanos, bizantinos, germânicos, turcos, austríacos, nazistas e, mais recentemente, americanos.

O parque, hoje construído em volta da fortaleza, exibe orgulhosamente tanques capturados dos alemães nas duas guerras mundiais, além de armas (baterias anti-aéreas, obuzes, jipes) doadas pelos soviéticos e usadas pelos partizans na Resistência. Crianças podem entrar nos blindados e brincar. Dentro do castelo, um museu de mineralogia exibia pedras preciosas trazidas de… Minas Gerais. Perto da torre principal (onde funciona um observatório) há uma igreja ortodoxa pequenininha com um lindo batistério. Acima da pia batismal existe uma clarabóia onde há oito imagens de santos, de cujos nomes os pais tiravam sugestões para os bebês. Deve ser essa a razão de os nomes sérvios se repetirem tanto.

A vista do alto do Kalemegdan é de tirar o fôlego. À beira do Sava, a cidade antiga de Belgrado, com prédios históricos, a maioria datando da época em que a cidade foi capital dos reinos da Sérvia (1878-1918) e da Iugoslávia (1918-1945). Depois de abolir a monarquia, Tito manteve quase tudo intacto. Entre o Sava e o Danúbio, construiu a nova Belgrado, com os típicos blocos residenciais socialistas, homogêneos e ortogonais. Mais tarde, Milošević (aprendi a pronúcia: Milôshevitch) fez erguer a imponente torre da TV estatal. E, bem no encontro das águas, uma ilha enorme permanece completamente intacta, como uma floresta no meio da cidade (ok, ok, a gente tem a floresta da Tijuca, mas aqui é diferente; é Europa, onde tudo já foi ocupado e urbanizado, e esta floresta está intacta enquanto a cidade já existe há 2,5 mil anos). Mais adiante, fica a Ada Ciganlija, a península artificial onde os belgradinos passam os dias ensolarados de verão (com direito a praia de nudismo).

Este foi o primeiro dia. No segundo dia, encontramos Srboslav, nosso “fixer” por aqui, que nos contou (E MOSTROU) cenas do ataque abominável de 1999. E, além disso, nos levou para tomar cerveja sérvia num café com jazz ao ar livre.

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