AirFrance, orgulhosamente, oferece…

De Paris, propriamente dita, não vi quase nada. Como já eram 16h quando cheguei no hotel (sim, todo aquele ir-e-vir dentro do aeroporto demorou quase quatro horas), só tive tempo de tomar uma ducha, trocar de roupa e embarcar para a cidade. Isso não era exatamente uma tarefa fácil, não. Como o hotel fica perto do aeroporto CDG, e este fica a uns bons 50km do centro parisiense, isso significava pegar três transportes: ônibus do hotel à estação de trem do aeroporto, depois trem de superfície e enfim metrô. Saltei na estação Saint-Michel/Notre-Dame.

Sim, A Notre-Dame. Você sai da entradinha subterrânea e dá de cara com aquele paredão gótico, simétrico, maciço da catedral. Um pouco arroxeada. Olha… não é tão alta quanto a da Sé de São Paulo. Mas é muito mais bonita.

Fiquei algum tempo circundando a catedral. Olhando os gárgulas, a rosácea, as canaletas de escoamento de água. Buscando vestígios do Quasímodo, figura que sempre fez parte do meu imaginário. Lembrando do quadrinho que via desde criança na casa da minha avó, tentando reconhecer a paisagem. Tinha parado de nevar, e o gelinho de congelador no chão formava pontos brancos que refletiam a iluminação dos spots no chão.

De lá, saí andando a esmo. A rua lateral, como se era de esperar, é uma passarela de lojas de souvenirs (hmm, nunca pensei que usaria essa palavra na conotação original em francês!). Tem canecas, cachecóis, postais, relógios e os mesmos quadrinhos que um dia alguém comprou e deu pra vovó. E as boinas. As típicas boinas parisienses. Não sei quem disse que aquilo é apenas um estereótipo, mas NÃO É. Os parisienses usam aquelas boinas, sim! Vi vários no metrô, nas ruas, nos cafés. As boinas fazem parte da realidade, muito mais que os chapéus Panamá e as camisas listradas na horizontal vermelho-e-brancas dos cariocas de Hollywood.

Não comprei nada.

Só fiz questão de comer um crepe de chocolat (sem ‘E’) para marcar a passagem. Sim, crepe em Paris não é igual a mais nada no mundo. É mais macio, mais encorpado e, numa noite nevada, é mais quentinho. E a vendedora era vietnamita.

(sim, Paris tem muitos asiáticos: tantos indianos quanto Londres, mas também indochineses, chineses e sírio-libaneses; e ainda tem magrebinos e africanos negros, como já podia esperar… o que me surpreendeu mesmo foi a quantidade de indianos, porque não é possível que todos venham de Pondicherry)

Atravessei a ponte. Vi o Sena. Aquilo ali, sim, é um rio. É caudaloso, violento. Mais forte que o Danúbio em Belgrado. Resolvi não cuspir, por respeito.

E, logo adiante, estava a Prefeitura – o “Hôtel de Ville” – que não imaginava ser tão grande e suntuoso. E, mais que isso, iluminado por luzes piscantes de natal. O que em qualquer outro lugar do mundo seria kitsch, ali era um espetáculo arquitetônico e urbanístico. Foi o que mais me impressionou.

Dois anos atrás, quando estava em Belgrado, conheci no albergue um estudante de cinema francês que virou meu amigo. Sempre quis levar para ele um par de havaianas e as meias específicas de havaianas (com furo pra borracha do chinelo) que meu primo recomendou. Mas, quando fiz as malas e saí de casa, ainda não sabia que iria a Paris. Ainda do Galeão, tinha conectado no wi-fi da sala de embarque e mandado para ele um e-mail dizendo que teria só uma noite e pedindo o telefone dele. Agora, já em frente ao Hôtel de Ville, procurei um dos imortalizados (nos filmes, nos livros) cafés parisienses… que tivesse wi-fi.

Encontrei. Café Marguerite. Entrei, pedi um “citron à la pression” (na prática, um chopp-Sprite) e conectei. Olivier tinha respondido. Saí, comprei um cartão telefônico e liguei pra ele. Nesse trajeto, foi a primeira vez que experimentei a também imortalizada (etc. etc.) grosseria francesa. Enquanto tentava fazer minha pergunta, a mulher da loja mandava um estúpido “Allez-y, allez-y!“.

Olivier me convidou pra jantar na casa dele, com sua namorada Sophie. Ele mora agora num subúrbio de Paris, chamado Malakoff. É como um bairro operário. Muito calmo, simples e aconchegante. Nada da boemia da Rive Gauche, onde ele morava antes. O metrô leva uns bons 40 minutos, com duas trocas de linhas (nem preciso descrever como é a rede de metrô parisiense; todo mundo já sabe). Foi uma noite ótima. A menina é linda, também faz cinema, especializada em direção. Olivier tem sido técnico de som. Tentei convencer os dois a irem ao Brasil, mas não acho que fui muito bem-sucedido.

A comida foi macarrão sem molho com um empanado estilo Sadia (tinha um nome em francês; agora esqueci). Parecia feita pro Pedro Berger. Para beber, suco de manga. Quando comentei, espantado, que aquilo era fruta brasileira, o Olivier respondeu rápido:

“Ué, nós temos manga na França também!” Onde? “No supermercado.”

Isso me faz lembrar o comentário sobre a comédia francesa em “A Praia“. Molière uma pinóia.

O papo tá bom, etcetera e tal, mas eu tenho que ir. O onibuzinho do aeroporto pro hotel pára de passar às 23h30. E já eram umas 22h30. Despeço-me dos dois prometendo tentar “dar um pulinho” em Paris também na volta. Mais uma hora e meia de condução tripla e eu já estava no hotel, descansando para embarcar no dia seguinte, finalmente, rumo a Belgrado.

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