Número um do mundo, ameaça política?

Novak Đoković ao vencer o Aberto da Austrália

Novak Đoković ao vencer o Aberto da Austrália

Com atraso de quase um mês, quero registrar aqui a homenagem ao tenista sérvio Novak Đoković (pron. “NÔ-vac DJÔ-co-vitsch“), que no dia 4 de julho sagrou-se campeão no torneio de Wimbledon deste ano, depois de já ter vencido o Aberto da Austrália em 2008 e 2011 e a Copa Davis de 2010, entre outros títulos que o colocaram no topo do ranking mundial da ATP, à frente do catalão Rafael Nadal e do suíço Roger Federer.

Não conheço nada de tênis, mas imagino que deva ser o maior prestígio desse esporte ser considerado “o número 1″ do mundo. Pelo que vi na Sérvia, o tênis é um esporte realmente popular no país, e não elitista como aqui. Vários amigos que conheci lá (e também sérvios que conheço no Brasil) adoram e jogam tênis, acompanham os torneios e, não por acaso, admiram Đoković. Ele realmente vem sendo considerado um herói nacional na Sérvia - onde é conhecido pelo apelido Nole -, muito mais do que o Guga Kuerten para os brasileiros – talvez no patamar do Ayrton Senna, a título de comparação, e ainda um pouco menos que o Pelé.

Também conheço muitíssimo pouco da personalidade de Đoković. Sei que ele recuperou para os sérvios (e, de alguma forma, os ex-iugoslavos, o que inclui croatas, eslovenos, bósnios e macedônios) um certo orgulho pelo tênis que não se via desde a época da Monika Seleš (pron. “se-LÊSH“, não “séles“), que, pra quem não se lembra, é uma tenista sérvia. Li que ele começou a jogar e foi descoberto ainda criança, na época das guerras da Iugoslávia, nos anos 1990, e que hoje em dia mora em Mônaco – existe essa ligação afetiva curiosa dos iugoslavos com o principado, como eu também tenho.

O que me preocupa com ele são suas posições políticas. “Nole” já deu a entender várias vezes que tem certo apreço pelo nacionalismo conservador, o que em termos de Bálcãs é sempre algo alarmante. Em cerimônias anteriores em que foi recebido pela multidão na praça do Parlamento (Skupština, pron. “scúpchtina“), em Belgrado, o tenista fez o famigerado sinal dos três dedos (tri prsta), gesto tradicional de nacionalistas que representa a Santíssima Trindade Ortodoxa. Muito malcomparando, no contexto sérvio, digamos que isso equivale a levantar a mão pra fazer “Heil, Hitler”.

Fãs de Đoković fazendo o sinal dos três dedos

Fãs de Đoković fazendo o sinal dos três dedos

Đoković também recebeu condecorações tanto da Igreja Ortodoxa Sérvia, por enviar ajuda financeira e fazer campanha pela preservação dos templos sérvios no Kosovo, quanto da SNDA (Serbian National Defense America), entidade da diáspora sérvia nos EUA, baseada em Chicago, que reúne muitos veteranos tchetniks (četnici), monarquistas nacionalistas que lutaram contra os nazistas e contra os partizans de Tito na Segunda Guerra.

Além desses flertes com setores perigosos da política sérvia, o campeão também gosta de tirar uma onda de cantor e artista pop. Já apareceu em programas de TV como a final nacional do Eurovision (uma espécie de precursor do American Idol que é a grande sensação em toda a Europa, desde os anos 50) e num clipe do DJ francês Martin Solveig, junto com Bob Sinclair. Também sempre pega o microfone pra puxar hinos com a multidão quando discursa do alto do parlamento.

Tenho pra mim que, quando acabar a carreira esportiva – que, no tênis, é um tanto quanto curta - Novak Đoković deve querer entrar para a política. O medo é ele ser cooptado por algum partido radical ou movimento retrógrado que se aproveite do carisma natural que o tenista tem para amealhar votos e ganhar poder. Se o rapaz tiver cabeça boa, não se deixará usar. Por outro lado, se as idéias nacionalistas forem realmente sua convicção, é melhor que “Nole” fique bem longe do poder.

Nole, apelido de Đoković: flerte com o nacionalismo

Nole, apelido de Đoković: flerte com o nacionalismo

2 Comentários

  1. Muito interessante o post, tenho acompanhado o blog nos últimos tempos. Bom também ver um outro ponto de vista sobre essa ascensão do Djokovic tanto no esporte quanto na sociedade sérvia.
    Cheguei a falar sobre isso em um post no meu blog, no qual falo apenas sobre leste europeu. O link é este: http://rumoaoleste.blogspot.com/2011/07/djokovic-novo-heroi-nacional-da-servia.html . Fique à vontade para criticar, rebater, concordar, etc.

  2. Daqui do outro lado, ou seja, muito longo da Sérvia. Tenho acompanhado o ano sensacional de Djokovic nas quadras, visto que sou fã de tênis e suas entrevistas. Recentemente Nole foi eleito em Banja Luka na Bósnia-Hezergovina a personalidade do ano e falou em alto e bom som que se sente representante do todo o povo da antiga Iugoslávia. Achei extremamente bacana de sua parte. Em outra entrevista falou também que seu pai (Sr. Srdjan)nasceu no Kosovo e que tem familia lá, já sua Mãe ( Sra. Dijana) em Monte-Negro. Atualmente ele é o representante das Nações Unidas na Sérvia e tem feito visitas em escolas e conversado com crianças em Sarajevo. Nole tem levado o nome da Sérvia e apresentado os Bálcãs para o mundo. Muito bacana vc ter coloca um post sobre essa personalidade que ainda vai brilhar muito dentro das quadras e fora dela.


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