Bate-papo mensal dos brazucas em BGD

É hoje que acontece o encontro mensal da “comunidade” brasileira em Belgrado (er… cerca de 20 pessoas), como toda última sexta-feira do mês, na Confeitaria Choco. Fica na Rua Krunska, 80, a quatro quarteirões da Embaixada.

O próximo, só em dezembro.

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Todo nome significa algo

Os nomes sérvios tendem a se repetir muito. Quase todo homem é Nikola, Stefan ou Slobodan, e quase toda mulher é Ana, Jelena ou Vesna. Claro que há inúmeras outras opções, mas os pais dos bebês parecem confiar na tradição e não inovar muito. É praticamente o contrário do hábito brasileiro: grafias esdrúxulas como Mischelly ou Allecssandhry não têm espaço por aqui. Os nomes são tirados de uma lista de opções bem curtinha, não oficial, mas aceita no imaginário coletivo por todo mundo.

Alguns nomes sérvios são equivalentes de nomes ocidentais. Jovan é João (também tem Ivan, que na verdade é russo), Nikola é Nicolau, Petar é Pedro, Pavle é Paulo, Danilo é Daniel, Aleksandar é Alexandre, Srđan é Sérgio, Andrej é André, Lazar é Lázaro, Đorđe é Jorge, Luka é Lucas e Marko é Marcos.

Entre as mulheres, Ana é Ana, Jelena é Helena, Marija é Maria, Sonja é Sônia, Katarina é Catarina,  Irina é Irene, Jovanka e Ivana são Joana, Anđela é Ângela, Danijela é Daniela e Adrijana é Adriana.

Outros nomes de homem seguem fórmulas parecidas com os nomes germânicos (que terminam em -bert, -fred, -rich e -wald, por exemplo). As terminações mais comuns são -mir, que quer dizer “paz” (Vladimir, Tihomir, Dragomir, Ljubomir), -slav, que é “glória” (Branislav, Dragoslav, Stanislav, Miroslav, Vladislav), mais os sufixos -oje (Blagoje, Spasoje, Milivoje), -in (Dragutin, Milutin, Cvetin), -ko (Branko, Darko, Ratko, Zdravko, Cvetko, Slavko) e -an, que é a desinência final de adjetivo masculino (Goran, Dragan, Milan, Bogdan, Zoran, Stojan, Radovan). Outros nomes sem cognatos, mas com significados, são Uroš, Miloš (amado), Mladen (jovem) e Vuk (lobo).

Vale o mesmo para as mulheres: os finais comuns são -ica (Milica, Verica, Danica, Slavica), -ana (Dragana, Bojana, Gordana, Snežana), -inka (Darinka) e -ka (Senka, Anka, Slavka). Um dos nomes eslavos mais comuns para mulheres, Svetlana, é derivado de “svet”, que é “mundo” ou “luz” (sim, ambos; tem a ver com a cosmologia cristã, em que o mundo começou quando se fez a luz) e corresponde ao nosso “Lúcia” ou “Luciana”.

Cada prefixo quer dizer alguma coisa. O que começa com Bog- é relacionado a “Deus”; Ljub- é amor; Blag- tem a ver com nobre, mas também suave (idéia de que os nobres eram pessoas “delicadas”); Drag- é querido, adorado; Rad- é feliz; Gor- é relativo a montanha e Zor- é relativo a manhã;e Cvet- é flor (daí Cvetko é algo como Florêncio). Então Dragomir quer dizer “paz querida“, Bogoljub é “amor a Deus” (como Gottlieb alemão, Theophilos/Teófilo grego ou o nosso Amadeus), Cvetko quer dizer “florido“, Miroslav significa “glória da paz“, e por aí vai. Aliás, o apelido Miro vem daí.

Mas alguns nomes foram inventados depois, artificialmente, e pegaram na cultura por adesão rápida. É o caso de Jugoslav, que virou nome de homem por causa do nome do país, Iugoslávia, só inventado em 1929. E também de Slobodan, que significa “livre” e, embora tenha ficado famoso por causa do Slobodan Milošević, deriva na verdade de Slobodan Jovanović, um importante político da Iugoslávia monárquica, batizado por seu pai, Vladimir Jovanović, que por sua vez foi inspirado pelo ensaio “Sobre a Liberdade” de John Stuart Mill.

Um nome curioso é Ratimir, que quer dizer, literalmente, “guerra e paz” (rat i mir). Provavelmente deriva do sucesso causado pela obra de Tolstói.

Belgrado vista do alto

Dá para começar a entender por que eu me apaixonei por essa cidade…

Estereótipos de lá e de cá

É legal estar do outro lado do estereótipo, né?

Se você imagina o Leste Europeu como um lugar de prédios cinzas uniformes, paisagem monótona, homens bigodudos trêbados e desdentados e mulheres nascidas para serem atrizes pornô, então parabéns: você freqüentou direitinho as aulas do Ocidente. Viu os filmes do James Bond, o Eurotrip, o “Albergue”, leu o guia de viagem da Molvânia e leu todas as HQs do Tintin e do Tio Patinhas.

O problema é que o Leste não é cinzento; as mulheres não são sedentas por sexo (OK, nem todas) e a odontologia teve muitos avanços nas últimas décadas. O Leste Europeu, na verdade, é bem colorido, divertido, cheered-up, e muito distante do que ficou inculcado em nosso imaginário pela cultura de massa.

Só não é tão colorido quanto a imagem que eles fazem de nós, cá na América Latina. Porque tão curioso quanto ver como nós enxergamos o estereótipo do Leste é ver como eles nos enxergam. Um bom exemplo disso é a música (e a coreografia!) abaixo, intitulada Brazil, que ganhou a competição nacional do Eurovision na Iugoslávia em 1991.

Para quem não sabe, o Eurovision (ou Eurovisão, em Portugal) é um concurso de música pop que acontece anualmente na Europa inteira, desde a época da Guerra Fria. É tão ou mais popular do que o nosso antigo “Festival Nacional da Canção“, e muito anterior ao recente American Idol (ou Ídolos). Primeiro são feitas as seleções locais, depois as nacionais, e o público de cada país elege seu finalista para competir na fase continental. O grande ganhador é escolhido por voto entre todos os países e, desde a derrubada da Cortina de Ferro, os maiores vencedores têm sido do Leste Europeu. O vencedor de um ano ganha o direito de sediar a final do ano seguinte.

Em 2007, a vitória coube à sérvia Marija Šerifović – uma coisinha bizarra de quem falaremos mais tarde. Mas em 1991, o último ano da Iugoslávia unificada, a vitória foi dessa diva retrô chamada Baby Doll (ou, em bom servo-croata, Bebi Dol), com a tal música que homenageia o Brasil. Ah, o Brasil. Terra de alegria, da sensualidade, do samba, da rumba, dos sombreros e muchachos falando espanhol… er… como era mesmo o papo dos estereótipos?

A letra e a interpretação são da própria Bebi Dol.

Brazil, Španija, Kolumbija,
Kuba i Amerika
Samba, rumba, ča ča ča

Skini sve
Skini cipele što pre
Skini jaknu, farmerke
Hajde igra pođinje

Za tvoje usne i moj vrat
Tvoj poljubac će biti znak
Sad ramba igra šta, šta, šta
Da sam novu igru smislila

Brazil
Jedan okret to su dva
Reći hop i to su tri
Tvoje srce to smo mi
Brazil
Meni ne treba Brazil
Dolce vita, ča ča ča
Samo ti sa tobom ja

Skini sve
Skini cipele što pre
Skini jaknu, farmerke
Hajde igra pođinje

Za tvoje usne i moj vrat
Tvoj poljubac će biti znak
Sad ramba igra šta, šta, šta
Da sam novu igru smislila

Brazil
Jedan okret to su dva
Reci hop i to su tri
Tvoje srce to smo mi
Brazil
Meni ne treba Brazil
Dolce vita, ča ča ča
Samo ti sa tobom ja

A Pirâmide de Tito

Piadinha que corria na época do velho Marechal:

A Iugoslávia é um país feito de:

  • Seis repúblicas (Sérvia, Croácia, Bósnia, Eslovênia, Montenegro e Macedônia)
  • Cinco etnias (sérvios, croatas, eslovenos, macedônios e albaneses)
  • Quatro línguas (servo-croata, esloveno, macedônio e albanês)
  • Três religiões (catolicismo, cristianismo ortodoxo e islamismo)
  • Dois alfabetos (latino e cirílico)
  • E um Partido.

Como assim, um C com acento agudo?!

Sim, o servo-croata tem um acento agudo em cima da letra C. Ou melhor, uma letra específica que parece um C com acento: é o Ć. E não venha com essa cara de esquisitice: nós temos o Ç-cedilha, que é simplesmente uma vírgula debaixo do C, e achamos muito normal, não é?

Na verdade, o alfabeto latino do servo-croata (pois, lembremos, eles também usam o cirílico) é muito fácil de aprender e usar, pois segue a regra da ortografia fonética: para cada letra, um som; para cada som, uma única letra. Se fosse assim em português, não teríamos inúmeras letras e construções para representar o som de /s/, que pode ser escrito com S, SS, C, Ç, XC, SC…

Ao mesmo tempo, o nosso S pode às vezes ser /s/, como em “sonho“, e às vezes pode ser /z/, como em “casa“. E o nosso G pode ser /g/ como em “gato” e pode ser /zh/ como em “lógica“. Sem contar as inúmeras variações que a simples letrinha X pode ter: /sh/ em “xícara“, /ks/ em “táxi“, /z/ em “exercício“, /s/ em “sintaxe“… E você ainda tem a audácia de dizer que servo-croata é que é uma língua complicada?!

Por isso é que um estrangeiro pira quando tenta aprender português. Porque a língua deles, em geral, tem uma maneira muito mais regular de ser escrita. Ou seja, as ortografias das línguas européias, especialmente as do Leste, são extremamente normatizadas, até rígidas. E simples.

Para provar isso e facilitar a vida de quem vai ler os próximos posts do Yugoboy, fiz aqui um pequeno guia de como pronunciar as letras em servo-croata, rápido e fácil. Agora vamos lá, incorporem o baixinho da Xuxa adormecido em vocês, encham os pulmões, projetem a voz e repitam comigo em alto e bom som:

  • o C tem som de TS. Assim, “pica” é pizza. Sério.
  • mas o Č é outra letra, e tem som de “TCH”, como no nosso “tchau” ou “vou dançar o tchatchatchá “. Equivale ao CH do espanhol ou do inglês, ou ao CZ do polonês (daí “Czechoslovakia” ser “Tchecoslováquia”, morou?).
  • agora não me bata, mas existe ainda o Ć, o tal “C com acento agudo”, que é um som quaaase igual, mas diferente. Tem som de “TSCH”, ou um “TCH afetado”. A dica é: faça o movimento pra dizer “tchau” e ao mesmo tempo assopre entre a língua e o céu da boca. E não engasgue.
  • o D é sempre D, mas o Đ é como um “DJ”. Na verdade, é como um “DJ afetado”, tal como acima. A dica que funciona mesmo é pensar no Clodovil dizendo a famosa frase “Olhe ali pra lente da verdade!”, que na verdade soa afetadamente como “lentsch da verdadsch“. Pronto, são exatamente esses os sons de Ć e Đ.
  • e por favor, não me bata de novo, mas tem ainda o , que é como o DJ normal, igual a um J em inglês: assim, “James” em servo-croata vira “Džejms“.
  • o G é sempre G: “gitara” (violão) se fala “guitára“.
  • o H é sempre aspirado: “hvala” (obrigado) é tipo “rrvala“.
  • o J tem som de i, mas um “i curto” (semivogal), como no final de “pai”, ou em “ioga” (em português). Como se fosse um Y do espanhol. Nunca é consoante: por isso “Jugoslavija” virou “Iugoslávia” (em Portugal se escreve com J e se pronuncia como J mesmo: “Jugoslávia”, mas isso é coisa de lusitano).
  • o K é sempre K.
  • o LJ é como o nosso LH: “ljubav” (amor) se fala “lhúbav“. Não é um dígrafo: é considerado uma letra só – ou seja, nunca se separa.
  • vale o mesmo para o NJ, que é como o nosso NH: “tunjevina” (atum) se fala “tunhévina“. Nunca se separa tampouco.
  • o R é sempre trilado, como espanhol ou italiano. E o R em muitas palavras é considerado uma vogal. Então você lê “krv” (sangue) ou “trg” (praça) fazendo ênfase no som do R. Parece que são palavras sem vogais? É, mas para eles o R funciona como vogal.
  • o S é sempre S, mas o Š é como nosso CH ou X, ou como SH do inglês: assim, “šuma” (floresta) se fala “xuma“.
  • o Z é sempre Z, mas o Ž é como nosso J, ou “ZH” como se usa em inglês e espanhol (já que eles não têm esse som). Então “žuto” (amarelo) se fala “juto“.
  • Não existe Q, nem W, nem X, nem Y em servo-croata.
  • As outras consoantes que não estão aqui são porque são exatamente iguais às nossas: D, T, B, P, F, V, M, N, L…
  • As vogais são todas iguais às do português, só que regulares. ‘E’ é sempre “ê” fechado; ‘O’ é sempre “ó” aberto.
  • Não tem anasalamento. Quer dizer, o nome Ana não é “âna”, mas sempre “ána”.

Um grande problema é que, na internet, muitos falantes de servo-croata têm a péssima mania de omitir os hačeks (aquele que parece um acento circunflexo ao contrário) e tracinhos em cima de Š, Ž, Č, Ć e Đ, fazendo com que eles fiquem indistinguíveis de S, Z, C e D (assim como certos falantes de português têm o péssimo hábito de omitir acentos, ?). Pra eles é fácil, porque eles já sabem como se pronuncia. Mas pra nós, “gringos”, é uma zona. E pior que boa parte da mídia estrangeira reproduz essa besteira, fazendo a pronúncia ficar histriônica. É por isso que a Fátima Bernardes chama o Karadžić (Cáradjitsch) de “Caradzítsch”. O final “” eles já sabem como funciona, mas o resto fica uma salada…

Guia orkut das comunidades Sérvia e Yugo

Aqui vai a lista mais completa que consegui montar das comunidades no orkut que têm a ver com Belgrado, a Sérvia e a antiga (e saudosa!) Iugoslávia, separadas por tema:

BRASIL-YUGO

BELGRADO

SÉRVIA

IUGOSLÁVIA

CULTURA SÉRVIA E YUGO

ESPORTE

POLÍTICA E POLÊMICA