A nova “capital européia do cool”

Este texto saiu no Times em novembro.

Depois o povo não entende quando eu digo que Belgrado é a próxima cidade européia a estourar como destino de turismo-curtição.

(A Chica Batella já entendeu.)

Europe’s best nightlife in buzzing Belgrade

Enjoy the finest nightclubs, bars, and restaurants in Europe’s new capital of cool

Serbia is an undiscovered gem of southeast Europe.

The capital, Belgrade, is teeming with superb bars and clubs, fine fish and meat restaurants, and a complex history that keeps the sightseeing fascinating, despite being shorn of ancient architecture.

Elsewhere in the country the Danube floodplain is ripe for growing the most delicious organic vegetables, the second city of Novi Sad in the north hosts the brilliant EXIT festival in a medieval fort, there’s local and gypsy folk music a-plenty, epitomised by the Guca trumpet festival with its half-a-million visitors each summer, and if that’s not enough there’s mountains and monasteries, skiing and wine trails.

Belgrade is different enough to enjoy daytime around the city before hitting the town for an evening of revelry.

Wandering the city offers a welcome change to the pristine facade of Europe’s chocolate-box old towns, with the faded grandeur of the few pre-20th century buildings sitting awkwardly alongside concrete communist-era structures.

The recently completed exterior of the huge St Sava Orthodox church glistens next to other buildings while the National Theatre, Old Royal Palace, university and National Museum (closed for renovation) provide some older highlights.

High on a hill at the confluence of the Sava and Danube rivers, the Kalemegdan Fortress dates back to pre-Roman times – the current walls were contructed to the 15th and 16th centuries. The views are tremendous and it houses a beautiful park, one of many green spaces across the city.

…The good news for tourists is that the city is incredibly cheap by our standards. Main courses in the best restaurants are rarely more then £10, killer cocktails in the coolest bars are £2.50-5, while a beer should set you back between £1 and £1.50 depending on the venue. And the local brews (try Jelen Pivo or neighbouring Montenegro’s Nikšicko) tend to be far superior to and cheaper than the foreign imports.

While the people are some of the friendliest in the world, the one complaint I heard is that they are still being punished after suffering enough because of Milosevic. Economic sanctions were accompanied by travel restrictions, many of which are still in place – it’s very hard for residents to obtain visas to visit the EU, for instance.

To simplify the situation in one of the world’s most historically complex countries would be irresponsible – it’s best not to engage in political conversation, plenty blame the West for 1999, but visitors receive a very warm welcome.

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Servo-croata para pôr no prato

essa foto eu peguei na Wired

essa foto eu peguei na Wired

Acabo de voltar do supermercado. Fui fazer umas comprinhas de comida. Coisas fáceis de preparar, tipo sopa de pacote. Sopa de galinha. Sopa de brócolis. Sopa de letrinha… E, de repente, me vi olhando as prateleiras de cima a baixo, de esquerda a direita, procurando, procurando, procurando, uma sopa de letrinhas que fosse em cirílico!

Não encontrei. Mas fica a idéia para os fabricantes.

O dia de sol que está fazendo (mesmo ainda com +10o C) finalmente me deixou reconhecer a minha Belgrado. Esta é a cidade que eu conheci: iluminada, colorida, de céu azul. Hoje é o primeiro dia em que posso abrir as janelas, respirar, trocar o ar do apartamento. Sei que vai entrar poeira, mas…

Eu não paro de falar português

Na semana passada fiquei ciceroneando um grupo de cariocas que passou por aqui. Gente finíssima, todos. Depois, conheci um DJ sérvio que se amarra em funky/soul/breique (é, -ique, aquele do Tony Tornado e do Gerson King Combo) e arranha umas boas palavras – e palavrões – em carioquês. E, no mesmo dia, vou a uma festa onde há uma sérvia que dá aulas de português e alguns de seus alunos. Para não falar dos amigos brasileiros que fiz aqui.

Ou seja: minha língua materna não me abandona nunca.

Ter esses esbarrões eventuais com a última flor do Lácio quando se está em Paris, Genebra, Amsterdã, é natural e compreensível, já que estas cidades são mesmo destinos comuns de vários lusófonos. Não somente turistas, mas também imigrantes. Basta saber que um terço da população de Luxemburgo são portugueses, que nossos primos patrícios são os porteiros e faxineiros preferidos dos franceses e suíços, e que a comunidade brasileira em Londres é uma das que mais crescem.

Mas… na Sérvia?! Quem poderia achar que todo santo dia eu falaria em português com pelo menos uma pessoa?

Ontem, para melhorar, dei uma passadinha na embaixada brasileira para visitar. Já estavam fechando, mas avisaram que amanhã à noite tem sessão de cinema nacional. Ou melhor, brasileiro. E, melhor, em português.

Zeca Camargo no Kosovo

O Fantástico deste domingo vai exibir uma matéria do Zeca Camargo feita com as igrejas e monastérios do Kosovo, “patrimônio da humanidade ameaçado por uma disputa étnico-religiosa”. O pessoal da embaixada já tinha me dito mesmo que houve uma equipe da Globo aqui no ano passado. E, pelo jeito, a gravação é um pouco velha, porque ainda não tinha nem neve (agora está tudo coberto por um tapete branco).

Dá para ver a chamada aqui: http://tinyurl.com/fantkim

Queria saber se ele esteve no mosteiro de Peć, onde eu também estive.

Será que vai fugir dos clichês zecacamarguísticos? É esperar para ver. “Domingo, no Fantástico.”

O Marechal e as Flores

eutito_tumulo

Trecho de um e-mail que enviei a um grande professor:

Ontem estive no túmulo do Marechal Tito. Foi a segunda visita que fiz – a primeira foi em 2006. É um lugar muito simples, nada suntuoso, e por isso mesmo emocionante. Dentro de uma tumba de mármore branco rodeada de bromélias está sepultado o homem que empreendeu, com esforço próprio, a mais sincera e exitosa tentativa de construir uma sociedade com justiça social e liberdade.

E era um homem simples, que soube viver. Ao lado do túmulo foi montada uma exposição multimídia com “os réveillons de Tito“, de 1949 a 1980. As cenas mais comuns são do marechal acendendo o charuto, vestindo sombreros e chapéus pitorescos, dançando com a esposa Jovanka (à qual não era muito fiel, pelo que se conta) e entornando rakija, o aguardente de frutas que é a bebida mais popular daqui. Também vi alguns pronunciamentos dele exibidos em cinejornais e na TV a cada ano-novo. Ele era irrequieto, avesso a protocolos, remexia-se muito na cadeira, coçava o nariz em frente à câmera (nesse ponto lembra o Lula; aliás, Tito também foi metalúrgico). Não guardou ranço algum da ferocidade da luta nos tempos de partizan. A festividade de ano-novo passou a ser promovida pelo Estado como forma de ofuscar as festas religiosas, tanto os Natais católico (25/12) e ortodoxo (7/1) quanto o Ramadã islâmico. Alguns deles foram passados na rua, na praça pública, junto com os camaradas anônimos. Não tinha nojo do “cheiro de povo”. Tampouco descambava para o populismo barato. Na Iugoslávia não havia culto à personalidade. Sua imagem não era onipresente, como a de outros ditadores. As poucas estátuas do Tito estavam em museus ou parques específicos. A própria avenida então batizada em sua homenagem é, na verdade, uma rua pequena. E, quando sentiu que estava chegando ao fim, ele não pediu para ser mumificado nem depositado em algum palacete-mausoléu (como o de Dimitrov na Bulgária). Pediu apenas para ficar no jardim de inverno de sua casa, em Belgrado, e é lá que está.

O governo sérvio não inclui o local em seus folhetos turísticos, mas o túmulo do marechal é o ponto mais visitado de Belgrado até hoje.

O fato de, durante décadas, atrair filas quilométricas de admiradores e pessoas gratas pelo que ele fez, levando presentes e flores (não coroas fúnebres, mas das mais diversas cores) deu ao espaço o apelido de Kuća cveća – ou “Casa das Flores“, em servo-croata. Ontem, quando cheguei, havia um arranjo de rosas com uma fita vermelha junto à porta. Pelo estado das pétalas, tinha acabado de ser depositado.

É, né?

Pára tudo de novo

Aqui toca Teenage Fanclub em anúncio de concessionária de carro no rádio.

Leste Europeu e América Latina fora da mira de Obama

Tirado do blog do Edward Lucas, meu ex-professor e correspondente da The Economist no Leste Europeu.

GAZA, rather than gas, is likely to be top of the new American administration’s to-do list. If the ex-communist world gets any early attention, it will be in search of Russian help over Iran and in the Middle East, rather than the pressing business of Europe’s energy and military security. If Barack Obama’s top foreign-policy officials pay even a nanosecond of attention to eastern Europe in the first few months of their time in office, it will be to bemoan locals’ inability to deal with their own problems.

Concordo com cada palavra.

Assim como se tem dito que a América Latina – e o Brasil, mais especificamente – estarão lá embaixo na lista de prioridades do governo Barack Obama, que começa na semana que vem, tampouco o Leste Europeu deve receber mais que migalhas. O Lucas faz ressalva específica ao início do governo, mas eu não acredito que a região subirá muito na escala nos meses seguintes. Oriente Médio, China e a “special relationship” com o Reino Unido continuam no topo da pauta do dia para a Casa Branca, seja com chefe texano ou queno-havaiano. E nós, tanto lá no quintal americano quanto aqui no porão europeu, continuamos lanterninhas.

O que é uma pena.