Eurovision 2012 – Pouca chances para os Bálcãs

Faltando menos de um mês para a final, o Eurovision de 2012 está com uma competição mais interessante que o do ano passado. A ex-Iugoslávia (e os Bálcãs, de forma geral), como sempre, vem concorrendo em peso – cinco repúblicas, todas menos a Eslovênia. Aliás, desde o fim da Cortina de Ferro, o Eurovision vem gradativamente se tornando um “espaço” onde o Leste Europeu tem cada vez mais peso e maior chance de mostrar seus valores e identidades culturais. Mas as chances de o vencedor deste ano sair da Península Balcânica não parecem muito grandes.

Pra mim, a melhor concorrente deste ano, disparado, é a música da Alemanha (Roman Lob – Standing Still). É um bom pop rock, britanicamente radiofônico, do tipo que faria sucesso mundial se tivesse algum selo de gravadora americana por trás. Mas duvido que vá ganhar, porque é um arranjo e um ritmo singelos demais para os eleitores do Leste Europeu, que agora são maioria dos votantes do festival. Portanto, vamos aos demais concorrentes:

Este ano temos uma banda da Suíça (Sinplus – Unbreakable) que, apesar de fazerem uma imitação descarada de The Killers, são muito bons. Seguimos também com uma Shakira grega (Eleftheria Eleftheriou – Aphrodisiac) e uma representante do bom e velho turbofolk vindo da Croácia (Nina Badrić – Nebo), com uma boa balada estilo Ceca. A concorrente da Bélgica (Iris – Would You) aposta numa coisa meio folk rock, meio Taylor Swift, assim como a da Dinamarca (Soluna Samay – Should have known better). Já a banda da Bielorrússia (Litesound – We are the heroes) parece ter Nickleback como seu modelo – tirando o figurino robótico.

Mas nem só de imitações estilísticas vive o Eurovision. No quesito originalidade, temos uma canção politizada do sempre genial Rambo Amadeus, sérvio concorrendo por Montenegro (Euro Neuro) e uma tentativa de San Marino de fazer uma música com “tema atual” (Valentina Monetta – The Social Network Song). A da Letônia é uma “metamúsica”, uma canção falando dela mesma, sobre um sucesso que toca no rádio… idéia fraca, excecução razoável. E os únicos deste ano que fazem estilo “arranjo tradicional com batida pop” são os da Moldávia (Pasha Parfeny – Lăutar) e da Turquia (Can Bonomo – Love Me Back), com versões em inglês e em turco.

Fora isso, há as canções que se enquadram em “estilos. Como sempre, o Eurovision traz muito “pop de boate”, que é extremamente popular por lá (mas cada país toca o seu) e se convencionou chamar de eurodance – que nunca chega nas boates do Brasil. São eles: Chipre (Ivi Adamou – La La Love, que teria boas chances de enmplacar na noite carioca), Bulgária (a veterana Sofi Marinova e sua poliglota Love Unlimited), França (Anggun – Echo; seria a moça vietnamita?), Suécia (Loreen – Euphoria, muito ruim) e Ucrânia (Gaitana – Be My Guest, talvez a pior candidata ucraniana nos últimos 10 anos).

Há ainda alguns metidinhos a cantores solo (Malta: Kurt Calleja – This Is the Night, Geórgia: Anri Jokhadze – I’m a Jocker, que pra mim é a pior música de todas deste ano) e as xaropadas de sempre de Portugal (Filipa Sousa – Vida Minha), Sérvia (Željko Joksimović – Nije Ljubav Stvar), Eslovênia (Eva Boto – Verjamem), Espanha (Pastora Soler – Quédate Conmigo), Reino Unido (Engelbert Humperdinck – Love Will Set You Free), Estônia (Ott Lepland – Kuula), Bósnia (MayaSar – Korake ti znam), Albânia (Rona Nishliu – Suus, com a mulher que tem um coque de dread enrolado tipo Adele) e dos próprios anfitriães do Azerbaijão (Sabina Babayeva – When the music dies)

Temos também alguns rock farofa (Eslováquia: Max Jason Mai – Don’t Close Your Eyes, Macedônia: Kaliopi – Crno i belo) e um outro folk voz-e-violão com a representante da minoria sueca da Finlândia (Pernilla Karlsson – När jag blundar).

A pegada indie fica por conta de Israel (Izabo – Time), com uma bandinha um tanto retrô, e a baladinha da Holanda (Joan Franka – You and Me).

A bizarrice maior está a cargo das velhinhas russas (Buranovskiye Babushki – Party for Everybody), que seria cômico se não fosse lamentável, e da tentativa da Áustria de fazer um sucesso “glúteo” no estilo brasileiro (Trackshittaz – Woki mit deim Popo, em bom português, “mexa seu bumbum”).

As finais do Eurovision 2012 acontecem na semana de 22 a 26 de maio em Baku, capital do Azerbaijão – que, venceu a competição do ano passado e por isso vai sediar a edição deste ano, como dizem as regras do festival.

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Vinheta da Mostra de Cine pós-Yu em SP

A belíssima vinheta é também uma melancólica metáfora que reflete o que foi feito do sonho iugoslavo. Linda e triste ao mesmo tempo.

Mostra de Cinema Pós-Iugoslavo em SP

Pena que é em São Paulo. É assim que consigo resumir a sensação de ver a programação fantástica da Mostra de Cinema Pós-Iugoslavo, que começa amanhã (19/4), e que não poderei ver. Os 20 filmes serão exibidos apenas na filial paulistana da Caixa Cultural, na Praça da Sé, e infelizmente não virão para o Rio de Janeiro. É até irônico, já que foi esse mesmo centro cultural que promoveu a censura ao A Serbian Film, no ano passado.

E, além das projeções, haverá mini-cursos, palestras e oficinas com especialistas em cinema e questões dos Bálcãs. Uma delas será da antropóloga Andrea Carolina Schvartz Peres, que já entrevistei, provavelmente a pesquisadora brasileira mais dedicada à realidade balcânica pós-Yu (e também ao Jornalismo Internacional, que é a minha área).

O cineasta sérvio Zoran Đorđević, radicado em Caraguatatuba, também estará presente.

Na programação de filmes, está o maravilhoso Cinema Komunisto, de que já falei aqui no blog, além de jóias da cinematografia ex-Yu, como Karaula (2006, Rajko Grljić) – um filme FANTÁSTICO que sempre passo aqui em casa para os meus amigos – e os já clássicos Underground (1995, Emir Kusturica) e Antes da Chuva (1994, Milčo Mančevski).

É uma pena que não foi incluído o magnífico O Peso das Correntes (2009, Boris Malagurski), mas fica para uma próxima edição do evento.

Esta é uma oportunidade raríssima de conhecer mais a fundo as particularidades do “Oeste dos Bálcãs” (como se convencionou chamar a região da ex-Iugoslávia mais a Albânia, e excluindo a Eslovênia), que são muitas. A organização e a curadoria, a cargo de Raphael Fonseca e Sander Maurano, estão de parabéns. Pena que não virá para o Rio também.

A mostra vai até o domingo, dia 29/4, e a entrada é franca. O site oficial do evento é este: http://www.cinemaposiugoslavo.com .

A Serbian Film – a polêmica

Há um filme circulando há pouco mais de um ano ano em festivais ao redor do mundo que vem causando polêmica por onde passa. Já foi censurado, cortado, mutilado, proibido, banido e elogiado. É de terror. É pornô. E é sérvio.

Chama-se A Serbian film (nada podia ser mais simples, nada podia ser mais óbvio, nada podia ser mais curioso) e é dirigido por Srđan Spasojević (“sârdjã spassoiêvitsch”), um cineasta de 35 anos em seu primeiro trabalho. Ele cita como suas grandes influências diretores como David Cronenberg, John Carpenter e Roman Polanski, todos que deram contribuições ao gênero terror, cada um à sua maneira.

Na distribuição brasileira (da Petrini Filmes), está ganhando o péssimo subtítulo de “Terror Sem Limites” – não sei por que não bastava traduzir como “Um filme sérvio”. O título original é simplesmente Srpski film (sempre com F minúsculo) e o cartaz mostra o contorno do mapa da Sérvia escorrendo sangue sobre um fundo branco. Minimalista e cruel.

Quem já viu o filme (acabou de passar no novo Festival Lume, em São Luís do Maranhão) descreveu como “um dos filmes mais tensos que já vi na vida, senão O mais”; “sempre achei que era lenda urbana, mas qdo vi esse troço…”; disseram que “dá náusea, indignação, asco… mas é bom”.

Ainda não vi, mas será preciso pra conferir se há mesmo razão na controvérsia. Não parece ser do nível do light francês “Irreversível” (tem que ser muito carola-da-Tijuca pra chocar com esse filme, que não tem absolutamente nada de mais), mas sim do sueco “Ett hål i mitt hjärta”, ou “Um Vazio no Meu Coração”, de Lukas Moodysson. Em todas as sessões, mais da metade da platéia saía antes do fim.

Isso tudo, claro, além do simples fato de ser um filme sérvio.

 

O Grupo Estação vai exibir A Serbian Film em sessão extraordinária no Cine Odeon, sábado 23/7 às 22h (Rio de Janeiro). Estarei lá.


Publicado no G1

Censurado na Europa, filme sérvio tem sessão proibida em evento no Rio

A Caixa Econômica Federal proibiu a exibição do filme sérvio “A Serbian Film – Terror sem limites”, do diretor Srdjan Spasojevic, que seria exibido no próximo sábado (23), como parte do festival RioFan, no espaço cultural do banco no Rio de Janeiro.

O longa-metragem de terror já gerou polêmica na Europa, tendo cenas censuradas na Espanha, Reino Unido e Noruega por supostamente mostrar pedofilia e necrofilia.

A organização do RioFan anunciou nesta quinta-feira (21), por meio de nota oficial, que a sessão será transferida para o cinema Odeon, no Centro do Rio, no próprio sábado, às 22h.

“Lamentamos profundamente a decisão. (…) ‘A Serbian Film’ é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais polêmicos de todos os tempos, e não sem razão: é uma obra que questiona os limites da representação cinematográfica e que lida com situações e temas absolutamente condenáveis”, diz a nota do RioFan, que, no entanto, nega que o longa contenha imagens explícitas de pedofilia ou necrofilia.

“Não há, sob qualquer ótica possível, apologia à violência sexual contra mulheres ou menores de idade no filme. São atos absolutamente grotescos e tratados como tal por uma obra que se insere numa tradição de filmes “extremos” – um subgênero do cinema de horror que lida com questões repulsivas de forma radical, com o intuito de buscar o choque e a reflexão nos espectadores”, diz ainda a nota divulgada pelos organizadores do evento, que classificam como uma “surpresa” o veto por parte do banco.

Vem pra Sérvia você também… vem!

Despedida do Filipe Barini ontem à noite no Brod.

Ljubica, Sandra, eu, Filipe e Andrea

Ljubica, Sandra, eu, Filipe e Andrea

Ele ia só pra Rússia. Mas resolveu seguir meu conselho e deu duas paradinhas em Belgrado – na ida e na volta. E não se arrependeu. Acabou nesse estado aí que vocês estão vendo.

E você? Quando vem?

Hora da virada

O Goran é o de branco. Ele canta e toca sentado.

O Goran é o de branco. Ele canta e toca sentado.

Que me desculpem o espetáculo de fogos de Copacabana e seus dois milhões de fãs, mas nenhum réveillon poderia ser melhor que o meu. Na praça em frente ao Parlamento. Ao som de Goran Bregović. Sob menos oito graus centígrados. Enfiado entre uns 50 mil sérvios bêbados com bolas coloridas e garrafas de cerveja de plástico de 2 litros. Pulando e cantando música de ciganada, abraçando gente estranha e fingindo saber falar a língua com fluência.

Estava quente.

Foi como uma imensa GoEast. A céu aberto.

E a contagem regressiva foi uma rebobinada na mente que trouxe de volta tudo que se passou até aqui.

Deset.

A chegada, de trem, dois anos atrás.

Devet.

O pôr-do-sol no Kalemegdan.

Osam.

A despedida, Heathrow, o perrengue.

Sedam.

A saudade, o falar-de-Belgrado-pra-todos-os-amigos, a música, os postais no mural.

Šest.

A ECO vai aceitar um projeto de pesquisa que fala da Iugoslávia?!

Pet.

As aulas de sérvio.

Četiri.

Trabalhar pra ganhar dinheiro pra pagar a passagem pra voltar.

Tri.

A preparação pra volta, papelada, visto, câmbio.

Dva.

As confusões, a mudança, a correria.

Jedan.

A neve.

Nula.

Srećna nova godina!

Feliz 2009.

Moj rođendan

Mladen Ciric, Verica Filipovic e eu

Mladen Ciric, Verica Filipovic e eu

Sem receio de superlativos, acabo de ter o melhor aniversário da minha vida.

Foi na cidade que eu amo. Foi com amigos recentes mas já do peito. Foi ao som de uma trilha sonora fantástica que incluiu Fountains of Wayne, Violent Femmes e Ekaterina Velika. Foi bebendo cerveja montenegrina a 55 dinares (isso é algo como R$ 1,20; os copos são de 500ml). E foi beneficiado pelo fato de, segundo o calendário juliano, o dia 29/12 não cair entre o Natal e o ano-novo, o que contribuiu para que este fosse o aniversário com maior quórum desde a minha infância.

E, como se não bastasse, presentes maravilhosos. Ganhei um cachecol ótimo, uma garrafa de vinho, cinco CDs (Pačamama, Boban Marković, Dragomir Milenković e irmãos Teofilović, além de uma compilação de música tradicional), um livro sobre jornalismo de agências em servo-croata (“Agencijsko Novinarstvo“), um livro com anedotas de sérvios na fila de espera por vistos e um sugestivo guia “How To Conquer Belgrade“.

Valeu a todo mundo!