Número um do mundo, ameaça política?

Novak Đoković ao vencer o Aberto da Austrália

Novak Đoković ao vencer o Aberto da Austrália

Com atraso de quase um mês, quero registrar aqui a homenagem ao tenista sérvio Novak Đoković (pron. “NÔ-vac DJÔ-co-vitsch“), que no dia 4 de julho sagrou-se campeão no torneio de Wimbledon deste ano, depois de já ter vencido o Aberto da Austrália em 2008 e 2011 e a Copa Davis de 2010, entre outros títulos que o colocaram no topo do ranking mundial da ATP, à frente do catalão Rafael Nadal e do suíço Roger Federer.

Não conheço nada de tênis, mas imagino que deva ser o maior prestígio desse esporte ser considerado “o número 1” do mundo. Pelo que vi na Sérvia, o tênis é um esporte realmente popular no país, e não elitista como aqui. Vários amigos que conheci lá (e também sérvios que conheço no Brasil) adoram e jogam tênis, acompanham os torneios e, não por acaso, admiram Đoković. Ele realmente vem sendo considerado um herói nacional na Sérvia – onde é conhecido pelo apelido Nole -, muito mais do que o Guga Kuerten para os brasileiros – talvez no patamar do Ayrton Senna, a título de comparação, e ainda um pouco menos que o Pelé.

Também conheço muitíssimo pouco da personalidade de Đoković. Sei que ele recuperou para os sérvios (e, de alguma forma, os ex-iugoslavos, o que inclui croatas, eslovenos, bósnios e macedônios) um certo orgulho pelo tênis que não se via desde a época da Monika Seleš (pron. “se-LÊSH“, não “séles“), que, pra quem não se lembra, é uma tenista sérvia. Li que ele começou a jogar e foi descoberto ainda criança, na época das guerras da Iugoslávia, nos anos 1990, e que hoje em dia mora em Mônaco – existe essa ligação afetiva curiosa dos iugoslavos com o principado, como eu também tenho.

O que me preocupa com ele são suas posições políticas. “Nole” já deu a entender várias vezes que tem certo apreço pelo nacionalismo conservador, o que em termos de Bálcãs é sempre algo alarmante. Em cerimônias anteriores em que foi recebido pela multidão na praça do Parlamento (Skupština, pron. “scúpchtina“), em Belgrado, o tenista fez o famigerado sinal dos três dedos (tri prsta), gesto tradicional de nacionalistas que representa a Santíssima Trindade Ortodoxa. Muito malcomparando, no contexto sérvio, digamos que isso equivale a levantar a mão pra fazer “Heil, Hitler”.

Fãs de Đoković fazendo o sinal dos três dedos

Fãs de Đoković fazendo o sinal dos três dedos

Đoković também recebeu condecorações tanto da Igreja Ortodoxa Sérvia, por enviar ajuda financeira e fazer campanha pela preservação dos templos sérvios no Kosovo, quanto da SNDA (Serbian National Defense America), entidade da diáspora sérvia nos EUA, baseada em Chicago, que reúne muitos veteranos tchetniks (četnici), monarquistas nacionalistas que lutaram contra os nazistas e contra os partizans de Tito na Segunda Guerra.

Além desses flertes com setores perigosos da política sérvia, o campeão também gosta de tirar uma onda de cantor e artista pop. Já apareceu em programas de TV como a final nacional do Eurovision (uma espécie de precursor do American Idol que é a grande sensação em toda a Europa, desde os anos 50) e num clipe do DJ francês Martin Solveig, junto com Bob Sinclair. Também sempre pega o microfone pra puxar hinos com a multidão quando discursa do alto do parlamento.

Tenho pra mim que, quando acabar a carreira esportiva – que, no tênis, é um tanto quanto curta – Novak Đoković deve querer entrar para a política. O medo é ele ser cooptado por algum partido radical ou movimento retrógrado que se aproveite do carisma natural que o tenista tem para amealhar votos e ganhar poder. Se o rapaz tiver cabeça boa, não se deixará usar. Por outro lado, se as idéias nacionalistas forem realmente sua convicção, é melhor que “Nole” fique bem longe do poder.

Nole, apelido de Đoković: flerte com o nacionalismo

Nole, apelido de Đoković: flerte com o nacionalismo

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Todo inferno é pouco para Toninho Bufunfa

Na sexta-feira passada, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, em Haia, condenou a 24 anos de prisão o criminoso de guerra croata Ante Gotovina (pronuncia-se “goTÓvina“, com tônica no ).  Foi a primeira condenação do tribunal de Haia para um alto comandante do lado croata do conflito – o que já tinha acontecido com líderes bósnios, albaneses e principalmente sérvios.

Gotovina é o equivalente croata ao Ratko Mladić sérvio, em termos de grau de atrocidades por eles comandadas e de high-profile entre os criminosos de guerra do conflito de 1991-1995. Só que Mladić ainda está foragido, enquanto Gotovina foi capturado em 2005 nas Ilhas Canárias, possessão da Espanha na costa da África, em uma operação conjunta de inteligência da União Européia com apoio do então governo da Croácia. Está preso há 6 anos e, portanto, tem mais 18 a cumprir.

Ante Gotovina com o brasão croata no quepe

Ante Gotovina com o brasão croata no quepe

Mas há uma diferença básica entre as atitudes das populações balcânicas em relação a esses dois criminosos: enquanto na Sérvia – pelo menos em Belgrado e nas cidades – as pessoas se envergonham ao falar de Mladić (ao ter de reconhecer que estupros, mutilações e assassinatos coletivos foram cometidos em nome delas, ou de uma contestável “nacionalidade sérvia”), na Croácia… bem, na Croácia a maioria considera Gotovina um herói nacional.

Sim, um herói nacional. Quando estive em Zagreb, fui a uma loja de lembrancinhas ao lado da catedral principal da cidade (Marijini Uznesenje, ou Nossa Senhora da Assunção) e me deparei com algo que derrubou meu queixo: um chaveirinho com a imagem de um Gotovina sorridente, uniformizado. Sem conseguir disfarçar meu choque, olhei, mudo, para a balconista, que me perguntou (em inglês): “Você sabe quem é?“. Ainda mudo, confirmei. “He’s our national hero.

Nunca, mas nunca que em um estabelecimento equivalente em Belgrado que se encontraria um chaveirinho de Mladić. No Kosovo, onde os sérvios estão de fato acuados e militarmente reprimidos, sim. Em zonas rurais, vilarejos onde algumas mentalidades retrógradas imperam, também. Mas aquilo era a capital do país, bem no coração turístico. Muito mal comparando, seria como se as lojinhas de souvenirs no Corcovado vendessem chaveirinhos de Filinto Müller, Sérgio Fleury ou Sebastião Curió. Ou, melhor, se perto do Portão de Brandemburgo, em Berlim, se vendessem quinquilharias com as efígies de Goering, Himmler, Goebbels e outros.

Ante Gotovina foi responsável pela Operação Tempestade (Operacija Oluja, em servo-croata), a ofensiva croata-católica contra os sérvios da República da Krajina (ou “Marca”), região habitada por sérvios mas formalmente inserida no território da Croácia (vale lembrar que as fronteiras internas iugoslavas foram desenhadas intencionalmente para não corresponder às áreas ocupadas pelas etnias). Na ação militar – com apoio tático e de treinamento dos EUA -, cerca de 700 combatentes sérvios foram mortos (contra menos de 200 croatas), 4 mil sérvios foram feitos prisioneiros (dos quais 374 foram assassinados depois de presos, em circunstâncias como fuzilamentos, esquartejamento ou queimados vivos) e 90 mil sérvios foram expulsos, tornando-se refugiados. Foi limpeza étnica.

Entre as acusações formais feitas contra Gotovina em Haia, estavam assassinato, perseguição e deportação forçada de civis e violação de leis da guerra (como pilhagens e torturas de prisioneiros), todos considerados crimes contra a humanidade. Ele alegou inocência em todos os casos. A defesa dele no tribunal contou com nomes acostumados a vitórias em grandes processos internacionais, como Greg Kehoe (o promotor no “julgamento” de Saddam Hussein) e o irano-canadense Payam Akhavan, ex-assessor da promotoria no próprio tribunal de Haia (que, por isso mesmo, deveria contar com informações privilegiadas). Mesmo assim, foi condenado. Sinal de que as provas eram contundentes.

Mas o homem Ante Gotovina é um personagem fascinante. Católico fervoroso, mercenário por vocação, mulherengo inveterado, político e bon vivant, ele é muito mais complexo que a imagem de “carniceiro dos Bálcãs” atribuída aos criminosos de guerra daquela parte do mundo. É preciso lembrar que, antes de ser croata, ele nasceu como iugoslavo – mais especificamente, numa ilha da Dalmácia, o atual litoral croata no Mar Adriático. Deixou o país ainda adolescente para ser marinheiro e depois alistou-se na Legião Estrangeira francesa. Recebeu treinamento militar, tornou-se paraquedista e parte da tropa de elite da França. Lutou na África (Congo, Djibouti e Costa do Marfim) e foi condecorado. Ao dar baixa, passou a trabalhar como guarda-costas e matador de aluguel em Paris. Fez a segurança pessoal de Jean-Marie Le Pen, o líder protofascista francês, e passou a agir em operações paramilitares contra sindicatos.

Procurado por assassinato, roubo e extorsão, saiu fugido da França e veio para… a América do Sul. Encontrou trabalho ensinando o que sabia: treinou grupos armados de direita na Argentina e na Colômbia, onde ensinou as direitistas AUC a combater as FARC com mais eficácia. Apaixonou-se e casou-se com a jornalista colombiana Ximena Dalel, com quem teve uma filha, também batizada Ximena.

Com o início da guerra civil iugoslava, em 1991, Gotovina se apressou em voltar pra terra natal, de onde tinha saído 15 anos antes. Destacou-se nos primeiros combates, na Eslavônia (nordeste da Croácia, fronteira com a Sérvia, onde ficam Vukovar e Osijek), e logo foi remanejado para o principal teatro de operações, na Krajina (pronuncia-se Craina). Foi lá que obteve suas maiores vitórias em combate e foi alçado à patente de general, às custas de atrocidades contra muçulmanos e sérvios.

Na sexta-feira, a leitura da sentença foi acompanhada pela população croata com telões na praça principal de Zagreb. A condenação foi recebida com vaias. A primeira-ministra da Croácia, Jadranka Kosor, criticou Haia e foi recepcionar no aeroporto o outro criminoso, Ivan Čermak, que foi absolvido e voltou pra casa. Já na Sérvia, a sentença contra Gotovina foi recebida com alívio, principalmente por parte dos refugiados que ele expulsou de suas terras e hoje vivem de ajuda alheia em Belgrado. Mas não houve comemoração. Isso dá uma medida dos diferentes sensos de responsabilidade que cada sociedade ex-iugoslava adotou em relação ao conflito.

Se fosse um personagem de novela brasileira, seria algo como um chefão do tráfico, comandante de milícia ou capitão do cangaço, conhecido como “matadô” – e, mesmo assim, admirado pela comunidade. Fosse um mafioso de Chicago, seria provavelmente Tony Cash. A tradução do nome – Ante é a forma servo-croata de Antônio, e num apelido ficaria Tonico ou Toninho; já Gotovina é uma palavra vulgar para dinheiro, grana, bufunfa – já daria um caráter ao mesmo tempo farsesco e temível. Seria um Toninho Bufunfa, bandido de pouco escrúpulo e alta periculosidade – que, para o bem dos Bálcãs e da paz no mundo, vai passar os próximos 18 anos atrás das grades.

Já foi tarde, Richard Holbrooke

Eu comemorei muito hoje a morte de Richard Holbrooke, um dos responsáveis pelo bombardeio a Belgrado em 1999. O obituário abaixo é de minha autoria e foi publicado no Opera Mundi. Agora estou ansioso para escrever também o da Madeleine Albright, o do Joe Biden, o Wesley Clark, o general Michael Jackson, o Bill Clinton

Holbrooke, o homem das guerras da Casa Branca

Richard Holbrooke

Richard Holbrooke

 

O diplomata norte-americano Richard Holbrooke, morto na noite desta segunda-feira (13/12) em Washington por complicações pós-cirúrgicas, foi conhecido por obter sucesso em “causas impossíveis” para a diplomacia dos Estados Unidos, entrando em campo quando a Casa Branca se via metida em um atoleiro sem saída evidente.

Ao longo das últimas duas décadas, Holbrooke esteve envolvido em praticamente todos os conflitos em que os EUA entraram – ou causaram – no mundo, como Vietnã, Bósnia, Kosovo, Afeganistão e Paquistão. Não chegou a pisar no Iraque, mas defendeu a opção diplomática em vez da militar para derrotar Saddam Hussein.

Richard Charles Albert Holbrooke nasceu em Nova York em 24 de abril de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, um mês depois do ataque japonês a Pearl Harbor e uma semana após a rendição da Iugoslávia para os nazistas. Coincidentemente, os dois fatos teriam repercussão como déjà-vu em sua carreira diplomática, décadas mais tarde. Em 1999, Holbrooke seria responsável por levar o ultimato à Iugoslávia, então sob governo de Slobodan Milošević, antes que o país fosse bombardeado pelas forças da OTAN, lideradas pelos Estados Unidos – repetindo assim a infâmia dos japoneses e a agressão dos nazistas.

A família de Holbrooke era de origem judaica, mas não praticava a religião, e trocara a Europa pelos EUA nos anos 1930 para escapar do nazifascismo. O pai, judeu polonês, mudou de nome ao chegar a Nova York e escondeu a identidade original até da própria família. A mãe, judia alemã, fugiu de Hamburgo em 1933, logo após a ascensão de Hitler ao poder.

Vietnã e Timor

Holbrooke estudou na Universidade Brown, em Rhode Island, uma das mais elitistas do país, e entrou para o serviço diplomático logo após se formar.

Sua primeira missão diplomática foi em 1962, no Vietnã, onde ficou responsável por coordenar o apoio em dinheiro aos anticomunistas e trabalhou como assistente dos embaixadores norte-americanos em Saigon (hoje Cidade de Ho Chi Minh). Aos 24 anos, foi chamado pelo presidente democrata Lyndon Johnson (sucessor de John Kennedy) como membro de um órgão consultivo sobre o Vietnã. Participou da comitiva norte-americana nas conversações de paz em Paris, em 1968, e depois deu aulas na Escola de Relações Internacionais Woodrow Wilson, em Princeton.

Em 1970, pediu para ser enviado ao Marrocos, onde houve duas tentativas de golpe enquanto esteve lá. De 1972 a 1976, foi editor da revista Foreign Policy, publicação de referência em relações internacionais nos EUA. Saiu de lá a convite do também democrata Jimmy Carter, para ser coordenador de segurança nacional de sua candidatura. Carter foi eleito e nomeou Holbrooke como subsecretário para Ásia e Pacífico – a pessoa mais jovem a assumir o cargo até então.

Nesse posto, coordenou a política de reaproximação com a China comunista e com a Indonésia, um país não alinhado. Nesse país, viveu sua primeira grande polêmica, ao elogiar a política de direitos humanos do ditador Suharto ao mesmo tempo em que o país conduzia massacres na ex-colônia portuguesa de Timor-Leste.

Mercado e Alemanha

Passou a década de 1980 (governos Reagan e Bush pai) fora de cena, trabalhando no mercado financeiro de Wall Street como consultor do banco Lehman Brothers (o primeiro a falir, em 2008, dando início à crise atual). Chegou a ser diretor da entidade, além de vice-presidente do Crédit Suisse.

Mas Holbrooke não desligou os laços que tinha com os democratas: foi assessor de pré-campanha do senador Al Gore para as primárias em 1988 (quando acabou derrotado para Michael Dukakis, que por sua vez perdeu a eleição para George Bush, pai). Em 1992, visitou a Bósnia-Herzegovina, no início da guerra civil iugoslava, de forma independente. Desde então, passou a defender que a Casa Branca adotasse políticas agressivas nos Bálcãs.

Em 1993, foi nomeado por Bill Clinton como embaixador dos EUA na Alemanha, terra natal de sua mãe e país que, sob Helmut Kohl, liderava o reconhecimento aos separatistas da Iugoslávia. Holbrooke colaborou com essa política, que estimulou o conflito.

No ano seguinte, Clinton o nomeou subsecretário para Europa e, nesse cargo, acumulou a função de representante para os Bálcãs. Nesse posto, foi o principal elaborador dos acordos de paz de Dayton, que levaram ao fim do conflito e retalharam o território da Bósnia. Também “falhou” na captura de Radovan Karadžić, o presidente dos sérvios na Bósnia, considerado criminoso de guerra pelo Ocidente. Doze anos mais tarde, ao ser preso, Karadžić revelou que Holbrooke fizera um acordo para possibilitar sua fuga.

Kosovo e Obama

Já em 1997, Clintou fez dele seu representante “informal” para o Chipre, ilha dividida por turcos e gregos no leste do Mediterrâneo. No entanto, Holbrooke trabalhou mesmo junto à insurreição dos albaneses do Kosovo, província da Iugoslávia, que iniciaram uma guerrilha separatista em 1998. No ano seguinte, Washington incumbiu-o de levar o ultimato a Milosevic, a quem teria feito a proposta de manter o Kosovo sob soberania iugoslava em troca da instalação de uma base militar. A proposta foi negada, Belgrado foi novamente bombardeada (após 58 anos), a OTAN invadiu o Kosovo e a base de Camp Bondsteel foi instalada dois meses depois. Dias depois, Holbrooke ganhou o cargo de embaixador dos EUA na ONU.

Membro militante do Partido Democrata, assim como seus colegas Madeleine Albright e Zbigniew Brzezinski, Holbrooke trabalhou nas equipes dos dois mandatos de Bill Clinton (1993-2001) e como assessor de política externa nas candidaturas derrotadas de Al Gore (2000) e John Kerry (2004). Voltou ao mercado financeiro enquanto George W. Bush esteve no poder, como diretor do grupo AIG, que também entrou em insolvência.

Em 2008, ficou fora da campanha de Barack Obama, mas foi nomeado como representante dos EUA para o Afeganistão e o Paquistão assim que novo presidente assumiu. Foi incumbido com a missão de facilitar a “transição” afegã, organizar politicamente o combate ao Talibã nos dois lados da fronteira e preparar a retirada militar, mas morreu sem ter conseguido.

Holbrooke, apesar da proximidade com os democratas e a participação decisiva na defesa dos interesses norte-americanos, nunca chegou a comandar diretamente a diplomacia dos Estados Unidos: quando Clinton precisou nomear um novo secretário de Estado, em 1997, pôde escolher entre Holbrooke e Albright, e acabou fazendo dela a primeira mulher no cargo.

Em vez da tranquilidade dos gabinetes, Holbrooke continuou sendo enviado para as zonas de guerra, levando as propostas – decorosas ou não – de Washington para os adversários em combate.

Dez anos da derrubada de Milošević

[Publicado originalmente no Opera Mundi; matéria que eu pautei e editei, em reportagem realizada pela nossa correspondente em Belgrado, Mirka Pejanović]

 

Dez anos após queda de Milosevic, Sérvia se queixa de reformas insuficientes

05/10/2010 – 19:44 | Mirka Pejanović | Belgrado

Os sérvios lembraram nesta terça-feira (5/10) os dez anos da derrubada de Slobodan Milosevic, o presidente da Iugoslávia e da Sérvia que governou durante todo o período de dissolução da federação balcânica, e até hoje é lembrado como um belicista corrupto por alguns e como um socialista que resistiu à pressão das potências ocidentais por outros. Uma década depois da chamada “Revolução de Outubro” nos Bálcãs, porém, o país lamenta que boa parte dos objetivos esperados na derrubada do governo ainda não foi alcançada.

No dia 5 de outubro de 2000, pessoas de diversos pontos da Sérvia chegaram a Belgrado, capital do país, para pressionar o parlamento a reconhecer a derrota eleitoral de Milosevic, que tentara se reeleger presidente duas semanas antes. Era um momento crucial na vida política e social da Sérvia: nas eleições de 24 de setembro, Milosevic perdera a presidência da República Federativa da Iugoslávia, mas se negara a entregar o poder a Vojislav Kostunica, candidato da Oposição Democrática da Sérvia (DOS, em servo-croata), formada por 17 partidos de diferentes orientações ideológicas. A Comissão Federal de Eleições anunciou que haveria segundo turno, embora, segundo a oposição, Kostunica tivesse obtido mais de 50% dos votos  2.470.304 votos, ou 50,24%. Milosevic recebera 1.826.799 votos, ou 37,15%.

Politika/reprodução

Recusando-se a aceitar a derrota, o Partido dos Socialistas da Sérvia (SPS) e seu líder, Milosevic, provocaram uma crise pós-eleitoral e chegaram a ameaçar uma guerra civil. Depois de vários dias de protestos e greves, a crise terminou em 5 de outubro, com uma grande manifestação diante da Assembleia Federal em Belgrado, reunindo centenas de milhares de pessoas. Neste dia, Misolevic foi derrubado do poder. No dia seguinte, admitiu a derrota eleitoral e parabenizou Kostunica, que em 7 de outubro tomou posse diante dos membros da Assembleia Federal como presidente da Iugoslávia.

Para Srdja Popovic, ex-liderança do movimento de resistência chamado Otpor, que teve participação importante na derrubada daquele governo, houve “uma variedade de fatos” na década de 1990 que geraram descontentamento na população e levou à sua queda.

“Houve uma onda de nacionalismo, guerras sem sentido, recrutamento militar forçado, com a ameaça de corte marcial para os desertores, a hiperinflação de 1993, que levou nossos pais da classe média à pobreza, a crescente repressão da oposição política, o confronto com os vizinhos e o mundo, as guerras e um bombardeio”, lista o ex-dissidente. “Era uma boa quantidade de razões para que as pessoas se envolvessem na luta por uma vida melhor, não é mesmo?”.

Endividamento

Embora o público sérvio aceite amplamente que a derrubada de Milosevic foi justificada, a ideia é combatida por Uros Suvakovic, antigo membro do SPS e presidente da Associação Sloboda (“liberdade”, em servo-croata), dedicada à preservação do legado de Milosevic. Suvakovic afirmou aoOpera Mundi que o presidente era “um homem honrado e honesto”, um “verdadeiro democrata” cujo poder se baseava no direito e na justiça social, e que foi injustamente denegrido nos meios de comunicação.

“Slobodan Milosevic foi o último grande estadista europeu do século XX; um herói da nação sérvia”, disse ele. 


Reportagem de TV australiana feita na época sobre o
levante de 2000 que derrubou Slobodan Milosevic


Suvakovic não concorda com as visões de que as mudanças de 5 de outubro de 2000 foram positivas na maioria.

“Não vejo nada de positivo nessas mudanças. Tudo está pior para a população e melhor para os proprietários da Sérvia – os magnatas que enriqueceram depois do 5 de outubro. Um resultado é o desaparecimento da Iugoslávia do mapa do mundo. Esta Iugoslávia, que era territorialmente maior que a atual Sérvia, tinha uma dívida externa de cerca de 7 bilhões de dólares. Hoje, passamos de 30 bilhões de dólares: caímos na escravidão das dívidas”, resume o dirigente socialista.

Cartel político

Já o analista político Zoran Stojiljkovic, professor da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Belgrado, acredita que, independentemente das mudanças democráticas, a Sérvia está longe de ser uma democracia consolidada.

“Estamos presos em uma espécie de democracia defeituosa ou deficiente. Por exemplo, existem os órgãos de comunicação, que são plurais, mas não são resistentes à pressão das estruturas políticas e dos magnatas. Além disso, não há vontade política para enfrentar a corrupção endêmica generalizada. A grande maioria dos cidadãos não vê os frutos imediatos das mudanças, e quatro ou cinco vezes mais pessoas se consideram perdedoras do que as que acreditam que a mudança democrática melhorou a qualidade de vida”, afirma Stojiljkovic.

Mirka Pejanović/Opera Mundi
Para Zoran Stojiljkovic, a democracia na Sérvia ainda tem muito a evoluir

O cientista político acrescenta que os maiores beneficiados pelas mudanças de outubro foram os partidos políticos, tanto os de oposição a Milosevic (os Democratas da Sérvia, DS, e o Partido Democrata Sérvio, SDS, além dos liberais LDP e G17+, fundados anos depois) quanto os herdeiros do dirigente (os socialistas do SPS e os radicais do SRS).

“Milosevic tinha um ‘casamento’ com as classes mais baixas – ou seja, prometia não abandoná-las durante a crise. Agora, o cenário é de algum tipo de vingança das estruturas que apoiaram Milosevic e perderam. O maior ganhador das mudanças é a elite política, todos juntos, transformados em uma espécie de cartel. Em vez de compartilhar o poder com a mudança da coalizão, sempre se deixa uma porcentagem de vagas, em cargos de direção, para os partidos de oposição, a fim de evitar qualquer risco de perder o poder. Por isso não surpreende que hoje, quando perguntam ‘O que significa o 5 de outubro para você?’, as pessoas respondam: ‘Uns foram simplesmente substituídos por outros’”, explica.

De frente para o mundo

O impulso da reforma democrática de 2000 perdeu força – para alguns, retrocedeu – com a morte do primeiro-ministro Zoran Dindic, em 12 de março de 2003. Ele tinha sido um dos principais líderes da “revolução” e seu assassinato, por um disparo de franco-atirador, teria sido obra de setores dos serviços de segurança e unidades especiais da polícia. O deputado Zarko Korac, que foi ministro do governo Dindic e agora é de oposição, disse ao Opera Mundi que o assassinato do primeiro-ministro determinou a maior parte do desenvolvimento da Sérvia depois de 2003.

“Sem dúvida, a Sérvia avançou em alguns aspectos. Os governos mudam nas eleições e, com Milosevic, não tínhamos esse direito fundamental – ele não aceitava a derrota nas eleições, portanto carecíamos de uma condição fundamental da democracia. No entanto, tivemos o assassinato do primeiro-ministro. O regime anterior matou o primeiro chefe de governo democrático e as forças obscuras ainda estão à nossa volta”, alerta.

Mirka Pejanović/Opera Mundi

Srdja Popovic: várias razões para derrubar Milosevic

Nos dois últimos governos de coalizão na Sérvia, o partido SPS de Milosevic foi um fator indispensável para formar a base aliada. O número de desempregados nos últimos dez anos aumentou em 0,5 milhão. Em 2010, o PIB (Produto Interno Bruto) representou apenas três quartos do de 1989. A pergunta é: o que ganharam e o que perderam os cidadãos sérvios com as mudanças democráticas de uma década atrás?

“A Sérvia agora olha para o mundo, ao contrário do isolamento em que se encontrava nos anos 1990”, diz Srdja Popovic. “Com as mudanças de 5 de outubro, a Sérvia entrou em um diálogo com os parceiros da região e o mundo, em contraste com a confrontação que, em virtude de Milosevic, iniciou cinco guerras sem sentido. Além disso, a Sérvia está se transformando em um país onde se pode viver do próprio trabalho, e onde, no lugar do medo e da repressão, existe alguma esperança e alguma expectativa de que amanhã será um pouco melhor”.

 

Carniceiro ou fiador da paz: as visões inconciliáveis sobre Milosevic

Wikicommons

Slobodan Milosevic (3º à esquerda) durante a assinatura do Acordo de Dayton, em 1995

Passaram-se dez anos desde os protestos em massa da oposição que levaram à deposição de Slobodan Milosevic, em 5 de outubro de 2000. Mas poucos fora dos Bálcãs e do Leste Europeu têm uma ideia mais precisa sobre quem foi o homem que presidiu – e, segundo muitas opiniões, foi um dos responsáveis – a dissolução da Iugoslávia.

Slobodan Milosevic foi presidente da Sérvia de 1990 a 1997 e da República Federativa da Iugoslávia (formada por Sérvia e Montenegro) de 1997 a 2000. Chegou ao centro dos acontecimentos políticos em 1987, quando, como funcionário de alto escalão do Partido Comunista da Iugoslávia, apoiou os sérvios no Kosovo e Metohija (então província com ampla autonomia dentro da Sérvia), oprimidos pela maioria albanesa. Em 1989, foi eleito para a presidência da Sérvia, na época uma das seis repúblicas que formavam a Iugoslávia. Nas primeiras eleições multipartidárias, em 1990, foi confirmado no cargo.

No mesmo ano, no congresso de fundação do Partido Socialista da Sérvia, foi eleito o primeiro presidente da legenda, surgida da união entre a Liga dos Comunistas da Sérvia e a Aliança Socialista dos Trabalhadores da Sérvia. Chefiou o partido até sua morte. Até 2000, o SPS esteve no poder, sozinho ou em coalizão com outros partidos.

O membro mais leal da coalizão que apoiava Milosevic foi o partido Esquerda Iugoslava (JUL, na sigla em servo-croata), liderado por sua própria esposa, Mirjana “Mira” Markovic. Ela exercia grande influência sobre Milosevic e sua política. Os filhos, Marija e Marko, também aproveitaram sua posição e sua influência. Marko fez fortuna com o contrabando de cigarros (crime pelo qual é hoje processado na Justiça).

A Sérvia sob Milosevic

A década de seu governo foi marcada pela desintegração da federação (embora Sérvia e Montenegro continuassem existindo sob o nome de Iugoslávia, as outras quatro repúblicas se separaram), as guerras civis na Bósnia e na Croácia, o conflito do Kosovo e as sanções das Nações Unidas contra a Sérvia. Embora oficialmente a Sérvia não estivesse envolvida nas guerras da Bósnia e da Croácia, várias das atrocidades de guerra foram cometidas por sérvios cidadãos dessas repúblicas (embora também tenha havido outras perpetradas por croatas e muçulmanos bósnios). Milosevic foi apresentado na mídia internacional como a pessoa por trás dos combatentes de etnia sérvia, chegando a ser chamado de “carniceiro dos Bálcãs”.

Politika/reprodução
Mira Markovic e Marko Milosevic exilaram-se na Rússia após o fim do regime

Por outro lado, nos momentos em que era necessário negociar com os representantes sérvios da Bósnia, Milosevic era qualificado no mundo político como “o fiador da paz e da estabilidade na região”. Ele exerceu esse papel em 1995, ao assinar o acordo de Dayton (Ohio, EUA), que pôs fim à guerra na Bósnia.

Mas, três anos depois, um novo campo de batalha se abriu na Sérvia. Os nacionalistas albaneses voltaram a buscar a independência da província de Kosovo e criaram o grupo paramilitar Exército de Libertação de Kosovo (UÇK, na sigla em albanês), que enfrentou o exército e a polícia iugoslavos na guerra civil de 1998-1999. Pressionado pelos EUA e potências europeias, Milosevic negou-se a retirar as tropas do Kosovo, o que levou a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) a bombardear a Sérvia. Depois de dois meses de bombardeios, Milosevic se comprometeu a retirar o exército sérvio e o Kosovo ficou sob o controle das Nações Unidas mesmo depois de proclamar a independência, em 2008.

Depois da queda

Milosevic foi preso em abril de 2001 e, em junho do mesmo ano, transferido para o Tribunal Penal para a Ex-Iugoslávia, em Haia, acusado de crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos em Kosovo. Em outubro e novembro de 2001, o tribunal de Haia emitiu duas novas acusações contra Milosevic, por crimes de guerra na Croácia e pelo genocídio de muçulmanos e croatas na Bósnia Herzegovina. Milosevic morreu em 11 de março de 2006 na prisão em Scheveningen, Holanda. A causa oficial foi um ataque cardíaco provocado por medicação indevida, mas correligionários levantaram suspeitas – nunca provadas – de que ele teria sido assassinado.

Depois das mudanças de 2000, o filho do ex-presidente, Marko Milosevic, fugiu do país, tendo mandados de prisão contra ele sob acusação de espancamentos e de chefiar uma quadrilha de contrabando de cigarros. Ele e a viúva de Milosevic, Mira Markovic, vivem atualmente na Rússia, onde têm asilo político. Em 14 de setembro de 2010, o caso prescreveu e Marko foi absolvido das acusações de espancamento por falta de provas.

Ironicamente ou não, no mesmo dia, foi preso Bogoljub Arsenijevic Maki, um dos pioneiros das mudanças de 5 de outubro, por causa do conflito com a polícia de Milosevic nos protestos de 1999.

Dilma, a balcânica que pode levar o Brasil a seguir os passos de Tito

[Artigo meu publicado no portal Nova Jugoslavija. Escrevi originalmente em inglês; eles traduziram para servo-croata, versão que pode ser lida aqui.]

 

Nearly half a century ago, Brazil was an indebted underdeveloped, fragile democracy; South Africa was blemished by institutionalized racism known as Apartheid; Russia was the bulk of USSR; and China was within the interim of the failed “Giant Leap Forward” and the bloody “Cultural Revolution”. In the meantime, Serbia was part of Yugoslavia, which held hands with India, Egypt, Indonesia and dozens of newly de-colonized countries to build the Non-Aligned Movement, which aimed at a more balanced world scenario, equally critical to both US-led and Soviet-led hemispheres of the Cold War.

It was 1961, when the Movement was founded in Belgrade, and leaders such as Tito, Nehru, Nasser and Sukarno were seen as champions of the developing world.

Now, on the eve of its 50th anniversary, the Non-Aligned Movement is quite a forgotten quasi-bloc, a rather loose pact of nations ranging from extreme-impoverished Malawi to emerging powers like India. In spite of Boris Tadić’s offer to hold the jubilee summit in Belgrade, 2011, the geopolitical role of NAM has long been replaced by fora such as the G77, G20, and IBSA.

Brazil was never part of the Non-Aligned Countries. Only three years after the NAM was born, the nation succumbed to military dictatorship, hopelessly submitted to the United States, as happened with most South American republics back then. “Alignment” meant siding with Washington in all levels, and cooperation with socialist states was out of question.

Yet, the legacy of Non-Alignment is being retaken by a politician who emerged from a humble metalworker to labor union boss and then a global leader: Luiz Inácio Lula da Silva, better known as Lula, the outgoing president of Brazil.

Next year, when Tito’s project will celebrate its jubilee, Lula will step out of office and hand power peacefully to his successor, to be elected this Sunday (Oct. 3rd). And, if all polls are to be trusted, it is most likely that it will be a woman.

Dilma Rousseff, the daughter of a pre-Dmitrov Bulgarian immigrant, is set to be elected as the first female president of Brazil. And, if successful, she is highly expected to keep Lula’s foreign policy, based on South-South trade and cooperation, a path deeply rooted in Tito’s Non-Alignment and national ways toward development.

For many parts of then-called Third World, Non-Alignment was way more than mere rhetorics and goodwill. It was an actual chance to meet development demands, such as building human resources and infrastructure, through exchange and training provided by fellow members. This remains alive in their memory in ways such as the gratitude felt for many Yugoslav doctors, engineers, journalists and other professionals who worked and taught in nations of Africa, Asia and Latin America.

Lula – just like Tito, a former lathe-operator – traced firmly these lines by extending technical cooperation to least developed nations in Africa, boosting joint-ventures with South American neighbors (particularly in oil and energy projects) and making integration prevail over competition (such as the Mercosur, a regional bloc with Argentina, Uruguay and Paraguay). Lula’s Brazil also joined India in making a hard stance at the Doha Round against the exploits of free-trade which would benefit the rich only.

For Brazil, it was not a matter of ideological stubborness, but rather strategical survival for its economy the fact of moving away from depending on American and European buyers, and turning to the never-satiated huge market of China. All political aspects came as consequences, and turned out to be quite positive. Its success was so that, when the wave of economical crisis hit most of the Euro-American pegged markets like a tsunami, in 2008-2009, the effects in Brazil were so mild that Lula jokingly described them as a “marola” – a local slang for a wavelet, or ripple.

It was this option, for instance, that pushed Brazil into forming a new four-sided forum, the IBSA, with India and South Africa – the Indonesia of the day –, or the lobbying G4 (with China, India and South Africa), as well as being categorized by Goldman Sachs as part of the BRICs – with Russia, India, and China –, the group of fast-growing nations whose economies are expected to outgrow those of historically dominant powers since the age of Imperialism (1870-1945).

More controversely, Brazil’s drive to build an alternative power network led to co-sponsoring (with Turkey) the uranium-swap agreement reached with Iran last June, soon discharged by the old powers in the UN Security Council, when approving new sanctions. Nevertheless, it was a landmark diplomatic move for treating Iran as a respectable negotiating partner and showing that the “international community” was far larger than the Euro-Atlantic axis.

Finally, Lula’s commitment to broaden partnerships and include, rather than exclude, peers with whom to make business and open channels, was behind the recent visa-free treaty signed with Serbia (yet to be ratified by both parliaments) and the newly established Brazilian embassies in Slovenia and Croatia. Moreover, it was more than a matter of coherence for Brazil to uphold the decision of not recognizing the unilateral independence of Kosovo, but also as a mean to tell old powers that they can no longer redesign map borders as they please.

If elected, Dilma Rousseff is expected to not move an inch on the ship’s helm, but steaming up the engines, and this might mean an ever greater support for cooperation between recent democracies, economically-stiffled societies and nations either disdained or mistreated by the West.

In 1964, as a youngster, Dilma saw Brazil swept by the military dictatorship, which killed and tortured many of her fellow students, intellectuals, artists and progressive politicians, and she joined the Communist urban guerrilla. After being chased, arrested, and tortured, this sort of “tropical partizan” rebuilt her life in the late 1970s as a local political advocate for Leonel Brizola, then vice-chairman of the Socialist International and an old-fashioned leftist leader in Brazil. It was not until the late 1990s that she would join Lula’s Workers Party, an avant-garde post-Marxist party which, interestingly, had “self-management” among its original program’s key points.

Will this Balkan-heritaged lady be able to achieve the Non-Aligned envisioned world where poorer states would be respected and listened, by learning to act, move, and speak as a group? Too soon to know, but odds are she will at least try hard.

(Article written by Pedro Aguiar, Rio de Janeiro)