Croatas acusados de racismo na Eurocopa

[fonte: Correio do Brasil]

A UEFA agiu contra o racismo na Euro 2012 ao abrir um processo contra a Federação Croata de Futebol neste sábado, devido a gritos racistas de torcedores de sua seleção na partida contra a Itália pelo Grupo C, em Poznan, na quinta-feira.

A entidade europeia já condenou a federação russa por torcedores que mostraram “faixas ilícitas” no torneio, mas os croatas são os primeiros a enfrentar procedimentos disciplinares por cantos racistas e exibição de símbolos preconceituosos.

A UEFA ainda investiga relatos de gritos racistas durante a partida da Itália contra a Espanha em 10 de junho e no jogo da Rússia contra a República Tcheca em Wroclaw [Breslávia] em 8 de junho – dia de abertura do torneio.

A questão do racismo dominou os dias anteriores à competição, que tem sedes na Polônia e na Ucrânia, no maior evento esportivo do Leste Europeu desde o fim do comunismo.

– A UEFA abriu procedimentos disciplinares contra a Federação de Futebol Croata por fogos de artifício acesos e arremessados e pela conduta imprópria de torcedores (cantos racistas, símbolos racistas) na partida pelo Grupo C da UEFA Euro 2012 contra a Itália, em Poznan, na quinta-feira – disse a entidade em comunicado.

A UEFA também está investigando relatos de que uma banana foi arremessada para o campo durante o jogo entre italianos e croatas, que terminou em 1 x 1.

[texto completo no site do jornal]

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Defesa de Mladić pede adiamento de julgamento por seis meses

Da AFP.

A defesa de Ratko Mladic, o ex-chefe militar dos sérvios da Bósnia, pediu nesta quinta-feira a extensão da prorrogação de seu julgamento no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) por seis meses, informou uma fonte desta câmara.

“A defesa pede respeitosamente à câmara (…) que ordene que seja adiado o início da apresentação de elementos de prova (da acusação) por mais seis meses”, indicou a defesa em um requerimento publicado pelo TPII, lembrando que o julgamento deve ser retomado no dia 25 de junho.

A defesa de Mladic, de 70 anos e que se declara inocente, explicou que quer dispor de mais tempo para “adaptar os preparativos da defesa à luz das irregularidades na divulgação” de provas em posse da promotoria.

O julgamento, adiado no dia 17 de maio um dia após ter começado e depois da declaração preliminar da acusação, deve ser retomado no dia 25 de junho com o depoimento da primeira testemunha da acusação, inicialmente previsto para 29 de maio.

Os juízes decidiram, após uma demanda da defesa neste sentido, pelo adiamento do início desta etapa do julgamento devido a “irregularidades” e atrasos na transmissão à defesa de documentos no poder do gabinete do promotor e que deveriam permitir que a defesa se preparasse para o julgamento.

Detido no dia 26 de maio de 2011 na Sérvia depois de escapar durante 16 anos da justiça internacional, Mladic, chamado de “Carniceiro da Bósnia”, é acusado de 11 crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio na guerra de 1992-1995, em particular no massacre de Srebrenica, no qual foram assassinados quase 8 mil muçulmanos, adultos e crianças. Mladic pode ser condenado à prisão perpétua.

A vitória de Nikolic e a ironia das fronteiras nos Bálcãs

Publicado originalmente em Opera Mundi:

A eleição do candidato populista Tomislav Nikolic para a presidência da Sérvia, no último domingo (20/5), pegou de surpresa boa parte dos analistas internacionais. A vitória do centrista Boris Tadic, que cumpriu dois mandatos presidenciais e antecipou a eleição para tentar um terceiro, era dada como praticamente certa. A apuração, porém, deu vitória ao oposicionista com pouco mais de 50% contra os quase 47% do ex-presidente.

A causa mais apontada para a virada inesperada foi a sensação de mesmice. Era a terceira vez seguida que Tadic e Nikolic se enfrentavam nas urnas, e as duas plataformas de campanha tinham mais semelhanças que distinções – meta de adesão à União Europeia, promessa de “parceria” com outros países (notavelmente, a Alemanha), combate ao desemprego e à corrupção, luta por garantias de direitos para a minoria sérvia no Kosovo. Na prática, nada muito diferente da eleição anterior.

Com tão pouca novidade, tão pequena perspectiva de mudança real, os eleitores não se viram empolgados nem por um lado, nem por outro. Os brancos e nulos somaram 3% – o que é menos da metade da proporção brasileira de 2010. Mas o índice de comparecimento às urnas de 46% refletiu o enfado com que o eleitorado encarou essa eleição. Num país onde o voto não é obrigatório, os sérvios simplesmente não se deram ao trabalho de ir às urnas.

O resultado é que um ex-nacionalista foi eleito e pôs de novo a Sérvia sob o olhar desconfiado das potências ocidentais, que há 20 anos atribuem ao país a pecha de enfant-terrible regional. Artigos alarmistas saíram na imprensa norte-americana e europeia, como um do New York Times atribuindo a Nikolic a sugestão de transformar a Sérvia numa “província da Rússia”. Poucos, porém, pararam para examinar se o agora futuro presidente ainda é o mesmo porta-voz de posições delirantes da década passada.

Tomislav Nikolic veio do interior da Sérvia – quando a república era uma das seis que compunham a Iugoslávia – e começou a vida trabalhando como administrador de um cemitério público. Graças a isso, ganhou a alcunha de Toma Grobar (ou “Tom Coveiro”). Com formação em nível técnico, migrou para o setor de infraestrutura e foi um dos diretores da construção da ferrovia Belgrado-Bar, uma das maiores obras públicas da Iugoslávia de Tito. Da experiência, Nikolic tomou horror pelo método autogestionário socialista e, assim que a federação começou a se esfacelar, ingressou no movimento que reivindicava o legado dos tchetniks – guerrilheiros de direita que combateram os comunistas de Tito na Segunda Guerra e depois cometeram atrocidades contra croatas, muçulmanos e albaneses nas guerras dos anos 1990.

Rumo ao centro

Até 2008, quando sofreu sua última derrota eleitoral, ele era líder do Partido Radical Sérvio, fundado por ele e Vojislav Šešelj (criminoso de guerra preso em Haia desde 2003) para defender o ideário tchetnik. Sua plataforma era demagogicamente nacionalista (defesa retórica do Kosovo, mesmo sabendo que nada poderiam fazer na prática para recuperar a província) e eurocética, o que nunca lhe rendeu mais de 30% do eleitorado – uma barreira que certos políticos brasileiros também demoraram a romper.

Bruscamente, Nikolic rompeu com Šešelj, fundou um novo partido e passou a defender a integração da Sérvia à UE e privatizações, mas sem abrir mão do discurso irredentista sérvio no Kosovo, para não perder o voto das camadas mais conservadoras, principalmente nas zonas rurais. O resultado da manobra se viu no último domingo: um tchetnik “arrependido” foi alçado à presidência – algo antes temido dentro e fora dos Bálcãs.

Mas Nikolic hoje é uma figura complexa numa região acostumada a ser tratada por rótulos simplificadores. Num cenário em que líderes políticos recebem apelidos como “carniceiro”, seu diferencial é ter transitado sorrateiramente do nacionalismo extremista para o centrão populista. E esta passagem é o que o aproxima da maioria das lideranças vizinhas, também atraídas pelo ímã da moderação.

O marasmo na política sérvia não é uma exceção entre as antigas repúblicas constituintes da Iugoslávia. Está mais para regra. Na Croácia, segunda principal entre elas, o poder está alternado entre dois partidos centristas – o centro-direita HDZ, União Democrática Croata, e o centro-esquerda SDP, Partido Social-Democrata. Na Eslovênia, única até agora a entrar no bloco europeu, simplesmente todos os partidos com representação parlamentar trafegam no meio do espectro político, variando de um liberalismo conservador a um liberalismo ligeiramente atento a demandas sociais. Na Bósnia, o poder é dividido em linhas etnorreligiosas, não ideológicas, segundo a divisão imposta pelo Ocidente nos Acordos de Dayton (1995). Montenegro é comandada por uma máfia e o Kosovo continua um protetorado euro-americano onde só é eleito quem tem a bênção de Washington e Bruxelas.

Triste ironia

Apenas na Macedônia há algo que se aproxima de uma polarização, com o governo sendo alternado desde 1991 (ano de dissolução da Iugoslávia) entre o socialista SDSM, herdeiro da seção local do SKJ, o partido comunista iugoslavo, e o nacionalista-conservador VMRO. Mesmo assim, não ocorre, nos Bálcãs Ocidentais (jargão do Ocidente para designar o território da ex-Iugoslávia, menos Eslovênia e mais Albânia, que permanece uma “ilha” fora da UE), nenhum rissorgimento dos antigos PCs do Leste Europeu, como houve na Moldávia, na Eslováquia e chegou a haver na Hungria. Nem há nenhum fenômeno genuinamente esquerdista como o do Syriza grego, embora, em vários aspectos, a Grécia seja uma referência cultural e política da região.

De forma geral, os partidos políticos dos países da ex-Iugoslávia gastaram tanto tempo, durante os anos 90 e os anos logo subsequentes, acusando-se mutuamente pelos papéis que tiveram durante o conflito (se foram mais ou menos patrióticos, se acobertaram criminosos de guerra, se negociaram com estrangeiros), bem como atribuindo a ele todos os problemas e mazelas que houvesse, como o alto desemprego e enormes déficits públicos. Depois, passaram a se pautar, quase em uníssono, pelo tema da entrada na UE, que faz exigências bastante ortodoxas para a adesão – a começar pela adoção “preventiva” das medidas de austeridade, em nome da “estabilização econômica”. Maquiavelicamente, o fim comum vem justificando os meios e pasteurizando a política regional, movendo todos os grandes partidos em direção a um consenso liberal.

O que é tristemente irônico neste cenário é que, se de fato toda essa “ilha balcânica” for absorvida pela União Europeia (o que ainda parece improvável para países de economia muito frágeis, como Macedônia e Albânia, ou mesmo na própria Sérvia), as fronteiras entre eles – que não existiam na Iugoslávia unida – tenderão a se permeabilizar e, com o tempo, desaparecer. Foram as mesmas fronteiras que tanto se lutou para afirmar e pelas quais os nacionalistas da época, como Nikolic, tanto derramaram sangue.

A vitória de um candidato “pró-Rússia” na Sérvia como uma supresa para o Ocidente – ludibriado por seu próprio RP para os Bálcãs

Ótima análise não-ocidental sobre a “virada” na eleição sérvia, publicada pela rádio Voz da Rússia e escrita por Dmitri Babitch, atual analista da agência russa RIA-Novosti e ex-editor de Internacional do The Moscow News.

The unexpected victory at the presidential election in Serbia of Tomislav Nikolic, the former leader of the much reviled Radical party, was a surprise to the world, but not to Serbia itself. Since Tomislav Nikolic replaced Vojislav Seselj, now on trial for alleged war crimes in the Hague, in 2003 as the head of the Radical party, he has reinvented himself as a moderate supporter of Serbia’s integration into the EU and rebranded this political force as the Progressive party of Serbia. The country desperately wanted normalcy and some kind of international rehabilitation for the much publicized “crimes of Serb nationalism” of the 1990s. These developments did not mean, however, that Serbs forgot about the NATO bombings in 1999 or that NATO was as popular as the EU in Serbia. The Western media simply failed to remind its readers of this sentiment in Serbian society, hence the current feeling of bewilderment. A well-oiled NATO PR machine, which specialized on the Balkans since the wars of 1991-1999 can deceive Westerners – but not the locals.

Instead of concentrating on the problems, the mainstream press in Europe and the United States had been lulling its readers with stories about the imminent victory of the pro-Western incumbent, Boris Tadic, who won elections on a “pro-European” platform during the 2000s. Even Tadic himself seems to have fallen victim to this delusion, opting for an early presidential election this spring.

That move of Tadic, surprisingly, stunned only the Serbs themselves, it did not raise many eyebrows in the West – and for a reason. For decades the subject of the vast majority of Western press reports from Serbia was the obsessive hunt for the so called war criminals. So, when the two main suspects, former Bosnian Serb leaders Radovan Karadzic and Ratko Mladic, were captured, Brussels and Washington completely lost interest in Serbia, leaving it to its own devices. The decision to declare Kosovo an independent country, obviously taken not just in Pristina, but also in the Western capitals, was also expected to be easily “swallowed” by the Serbian public. Boris Tadic was expected to win, although his only “achievement” was a tentative agreement of the EU this year to start negotiations on Serbia’s membership in the European Union (EU). Now, when predictions of Tadic’s victory failed to materialize, the Western press is about to rush into another extreme, adopting an alarmist stand. Now the New York Times expresses doubts in Serbia’s EU course towards and scares its readers with a perspective of Serbia’s becoming “a province of Russia” – a view attributed by this newspaper to Tomislav Nikolic.

The very tone of the polemic around the Serbian election in the West European and American press reveals primarily the strength of negative stereotypes about Serbia and Russia and an almost narcissist obsession with one’s own practice of “nation building.”

“I don’t think the general course of Serbian foreign policy will change under Nikolic, he is also for the EU,” said Pavel Kandel, senior research fellow at the Institute of Europe, Russian Academy of Sciences. “But voting for Nikolic, the Serbs wanted to send the West a strong message that its projects in the Balkans are failing.”

Indeed, what are the results of the “nation building” in the Balkans, forced on Serbia and its neighbors by the US and the EU? Let us look at both history and modernity. This spring for Bosnia-Herzegovina, with its large Serb population, is the time of the 20th anniversary of the saddest events in its history – a series of clashes and attacks that ultimately led to the Bosnian war. The war formally ended in 1995 and Bosnia-Herzegovina became a de facto protectorate of the Western powers – the United States and the European Union. The term of “protectorate” belongs to Nebojsa Popov, a Serbian human rights activist, the founder of the Belgrad-based magazine Republika.

17 years after the start of the Bosnian experiment, even Western reports do not declare the project for “artificially multiethnic” Bosnia-Herzegovina a success. A recent survey conducted by the Western-financed Balkan Foundation for Democracy revealed that only 30 percent of Bosnia’s citizens trust their “compatriots” from other ethnic groups. The result is much worse that even in the times of Slobodan Milosevic – Bosnian Moslems continue to distrust Catholic Croats and Orthodox Serbs, the mistrust between Serbs and Croats has not in any way decreased.

“It is interesting to note, that Croats and Serbs living in Bosnia are not fans of the Bosnian soccer team, which is formally “theirs,” says Pavel Kandel of the Russian Academy of Sciences. “Instead, Serbs are fans of the Belgrade teams and young Croats dream of playing for Zagreb clubs. This is just an indicator of the failure of the experiment, in which several “generations” of West European governor-generals took part.”

Ironically, general Wesley Clark, the head of the military intervention against Yugoslavia in 1999, recently came out in the New York Times with an article pathetically headlined “Bosnia Still Needs Fixing.” How did the Western experts expect the Serbs to react to such articles from a person many accuse of systematically destroying former Yugoslavia? Or to the anti-Serb movie on the war in Bosnia from Angelina Joli, an American who had never set foot to the Balkans, but tries to resolve local moral problems?

The economic development does not inspire much enthusiasm neither. In Serbia, the much publicized “march towards the EU” brought about a situation when Nikolic could win claiming that the country now lives worse than before Tadic came to power in the year 2004. A recent visit by an IMF mission and numerous economic statistics paint a rather gloomy picture for Bosnia too – the country still has to make up for the 75 percent slump in the economy that occurred during the war of 1990s. Once a home to the Sarajevo Olympic Games in 1984, Bosnia never recovered from the war, which became a result of a hasty recognition of its independence from Yugoslavia by Western powers – Germany in the first place.

Politicians from the EU and the US like to blame Serbs for “failing to learn the lessons of history.” Meanwhile, the Americans and West Europeans demonstrate a unique ability to forget their own misdeeds – at least, in the case of the former Yugoslavia.

Demagogo Nikolić será o novo presidente da Sérvia

O candidato demagogo Tomislav Nikolić derrotou o atual presidente Boris Tadić nas eleições presidenciais da Sérvia neste domingo e foi eleito o próximo presidente do país.

Com pouco mais da metade dos votos apurados (52,51%), Nikolić, do Partido Progressista Sérvio (SNS, na sigla em servo-croata), teve 50,21%, contra 46,77% de Tadić, que deixou o cargo para tentar um terceiro mandato. Brancos e nulos somaram 3,03%.

O índice de comparecimento às urnas foi de 46,87%.

Este blog, declaradamente titoísta e que apóia os esforços verdadeiramente de esquerda para reintegrar os países da antiga Iugoslávia, considera esse resultado como um enorme retrocesso na política da Sérvia e de toda a região.

Mais informações neste link.

Eleições presidenciais na Sérvia dão mais do mesmo

Enquanto o mundo está prestando atenção na França, hoje também aconteceram eleições presidenciais na Sérvia.

Mas, enquanto o atual presidente francês, Nicolas Sarkozy, foi chutado do cargo por 51,67% dos eleitores (que preferiram o socialista François Hollande), o incumbente sérvio, Boris Tadić, tem sérias chances de conseguir um terceiro mandato consecutivo.

Na verdade, Tadić não é mais presidente da Sérvia desde o mês passado, quando renunciou ao cargo para disputar um terceiro mandato consecutivo, numa arriscada manobra que nos lembra Jânio Quadros em 1961. Cabe lembrar que o presidente-vassourinha se deu muito mal na ocasião.

Tadić, que é um centrista pró-europeu, pode voltar ao cargo se conseguir derrotar o nacionalista demagogo Tomislav Nikolić no segundo turno, no próximo dia 20. O primeiro candidato teve 26,8% dos votos válidos hoje, enquanto o segundo levou 25,6%. O índice de comparecimento às urnas foi de 59% (na Sérvia, o voto não é obrigatório).

Será nada menos que a terceira vez seguida que os dois vão se enfrentar nas urnas. Os sérvios já tiveram de escolher entre a dupla Tadić e Nikolić em 2004 e em 2008. E Nikolić já tinha concorrido antes em 2003, ainda sob a bandeira “Sérvia e Montenegro”, em eleições que acabaram anuladas por conta de baixo comparecimento. Em todas elas, o nacionalista foi o mais votado no primeiro turno, mas acabou perdendo no segundo. Desta vez, Nikolić chegou atrás de Tadić já na rodada inicial, o que pode ser um indicativo de sua queda de popularidade.

Até 2008, Tomislav Nikolić era membro e líder do Partido Radical Sérvio (Srpska Radikalna Stranka, SRS), cujo líder é o criminoso de guerra Vojislav Šešelj, atualmente preso em Haia. Proclamado “herdeiro dos tchetniks” (nacionalistas sérvios que combateram os comunistas de Tito na Segunda Guerra e promoveram massacres nas guerras iugoslavas dos anos 90), Šešelj colocou Nikolić como seu “representante” na política sérvia, até este perceber que teria mais ganho político caso se desvinculasse do mentor radical e, demagogicamente, fundasse um novo partido com o nome de Partido Progressista Sérvio (Srpska Napredna Stranka, SNS). Ganhou o apoio de oligarcas e notórios corruptos, como Bogoljub Karić e, agora, também defende a entrada da Sérvia na União Européia.

Já Boris Tadić concorre pelo Partido Democrata (ou DS, de Demokratska Stranka), partido “centrão” fundado por intelectuais anti-comunistas em 1989, no esteio das mudanças no Leste Europeu. A principal liderança do DS desde os anos 90 era o cientista político Zoran Đinđić, que chegou a ser premier (2001-2003) depois da derrubada de Slobodan Milošević, mas acabou assassinado em 2003. Tadić, que era um dos colaboradores mais próximos de Đinđić, sucedeu-o na liderança do partido e foi eleito presidente em 2004. Manteve uma política de “Kosovo + UE”, unindo as duas principais reivindicações do establishment sérvio, enquanto seus adversários defendiam ou uma, ou outra.

Outros candidatos na eleição de hoje são velhos conhecidos do eleitorado: o ex-presidente Vojislav Koštunica (DSS, centro-direita); o yuppie Čedomir Jovanović (LDP, antigo líder de protestos anti-Milošević e defensor do ideário neoliberal); o “socialista” Ivica Dačić (SPS, partido sucessor dos comunistas e “seqüestrado” por Milošević nos anos 90); e Jadranka Šešelj, mulher do criminoso de guerra. Há também o curioso mufti muçulmano do Sandjak (região de maioria islâmica vizinha da Bósnia), Muamer Zukorlić, e o líder da minoria étnica húngara, István Pásztor. Assim como em outros países ex-comunistas do Leste, não existe atualmente uma esquerda significativa na Sérvia.

A mídia ocidental está chamando a atenção para o fato de que, pela primeira vez, a eleição presidencial na Sérvia está pautada por temas domésticos – como a economia e a estabilização institucional para o ingresso na União Européia – e não mais por temas como o Kosovo (perdido de vez na sentença de Haia em 2010) ou a busca por criminosos de guerra (os três que faltavam, Radovan Karadžić, Ratko Mladić e Goran Hadžić, foram presos entre 2008 e 2011).

Mas a mídia ocidental entende pouco a Sérvia. Primeiro, é preciso considerar que há uma enorme rejeição da adesão à UE entre os sérvios. Muitos estão vendo vizinhos como os gregos (Sérvia e Grécia se consideram nações amigas desde tempos medievais) afundados em crises e “medidas de austeridade” — leia-se desemprego e cortes de direitos trabalhistas. Para um país que já tem desemprego de 24% e renda mensal média de 380 euros (R$ 950, baixíssimo para o padrão europeu), isso não parece um cenário atraente. Além disso, o Kosovo pode estar perdido, mas isso não elimina sua presença nas pautas eleitorais, principalmente por políticos demagogos que sabem o apelo que o tema ainda tem junto à opinião pública sérvia.

O sistema de governo sérvio é semi-presidencialista (como o da França e o da Rússia), o que significa que o primeiro-ministro, como chefe de governo, é mais um “administrador” do dia-a-dia, mas quem tem o poder de definir as grandes políticas de Estado é mesmo o presidente. Além disso, Tadić conseguiu uma manobra para garantir que as eleições presidenciais deste ano ocorram junto com as legislativas (como é no Brasil, mas não é comum na Europa), na tentativa de garantir maioria parlamentar para o seu DS.

Na votação legislativa, a coligação encabeçada pelo Partido Socialista ficou em terceiro, com 16,6% dos votos, mas suficiente para ser o fiel da balança no próximo parlamento sérvio. Ivica Dačić apressou-se em dizer que “a Sérvia talvez não saiba ainda quem será seu próximo presidente, mas já sabe quem será o primeiro-ministro”. Os resultados de hoje indicam que os “democratas” de Tadić precisarão compor com os “socialistas” de Dačić para formar governo. As aspas são não apenas pra ressaltar a distância entre o rótulo e o conteúdo programático de cada partido, mas também servem como um indicativo de que os nomes no futuro governo pouco importam – a Sérvia está longe de ver novidades na política a curto prazo.

Dois jornalistas brasileiros na ex-Iugoslávia

Os coleguinhas Fernando Figueiredo Mello e Diogo Lucato (repórter e fotojornalista, respectivamente), formados pelas PUCs de SP e RS, estão desde junho em viagem pela ex-Iugoslávia, agora quase no finalzinho, e registram tudo no blog balcânicas. Demorei a encontrar o blog deles, mas ainda bem que o fiz enquanto ainda estão lá. São textos curtos e sensatos, acompanhados de fotos com uma perspectiva singular. Já passaram por Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia, estavam ontem no Kosovo (é O Kosovo, com artigo masculino, pelamor) e chegaram hoje à Macedônia – última parada no itinerário. Eu também estive em vários desses lugares (principalmete Belgrado e Kosovo), mas o roteiro deles é bem maior.

(o texto tem uns errinhos de português e uns clichês de política externa ocidental, mas no geral é muito bom)

Recomendo muito a leitura atenta de todos os posts e a apreciação das belas imagens desse lugar arrebatador.

Bar Tito, em Sarajevo - um dos vários bares iugonostálgicos na ex-Yu

Bar Tito, em Sarajevo - um dos vários bares iugonostálgicos na ex-Yu

Destruição causada pela OTAN em Belgrado, há 12 anos

Destruição causada pela OTAN em Belgrado, há 12 anos

Sede da UNMIK, a missão da ONU no Kosovo

Sede da UNMIK, a missão da ONU no Kosovo

Patriarcado Ortodoxo de Peć, no Kosovo

Patriarcado Ortodoxo de Peć, no Kosovo

(Todas as fotos são de Diogo Lucato, publicadas no balcânicas)