O melhor do indie ex-Yu contemporâneo

A banda Eva Braun (sim, o nome da namorada de Hitler) foi uma das melhores descobertas musicais da minha segunda estadia na Sérvia. Fazem um som indie da melhor qualidade, com ótimas letras. Quem não entender pode pegar as letras no Vagalume e traduzir no Google Translator.

Eva Braun – Meg Ryan Blues

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Servo-croata para pôr no prato

essa foto eu peguei na Wired

essa foto eu peguei na Wired

Acabo de voltar do supermercado. Fui fazer umas comprinhas de comida. Coisas fáceis de preparar, tipo sopa de pacote. Sopa de galinha. Sopa de brócolis. Sopa de letrinha… E, de repente, me vi olhando as prateleiras de cima a baixo, de esquerda a direita, procurando, procurando, procurando, uma sopa de letrinhas que fosse em cirílico!

Não encontrei. Mas fica a idéia para os fabricantes.

O dia de sol que está fazendo (mesmo ainda com +10o C) finalmente me deixou reconhecer a minha Belgrado. Esta é a cidade que eu conheci: iluminada, colorida, de céu azul. Hoje é o primeiro dia em que posso abrir as janelas, respirar, trocar o ar do apartamento. Sei que vai entrar poeira, mas…

O Marechal e as Flores

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Trecho de um e-mail que enviei a um grande professor:

Ontem estive no túmulo do Marechal Tito. Foi a segunda visita que fiz – a primeira foi em 2006. É um lugar muito simples, nada suntuoso, e por isso mesmo emocionante. Dentro de uma tumba de mármore branco rodeada de bromélias está sepultado o homem que empreendeu, com esforço próprio, a mais sincera e exitosa tentativa de construir uma sociedade com justiça social e liberdade.

E era um homem simples, que soube viver. Ao lado do túmulo foi montada uma exposição multimídia com “os réveillons de Tito“, de 1949 a 1980. As cenas mais comuns são do marechal acendendo o charuto, vestindo sombreros e chapéus pitorescos, dançando com a esposa Jovanka (à qual não era muito fiel, pelo que se conta) e entornando rakija, o aguardente de frutas que é a bebida mais popular daqui. Também vi alguns pronunciamentos dele exibidos em cinejornais e na TV a cada ano-novo. Ele era irrequieto, avesso a protocolos, remexia-se muito na cadeira, coçava o nariz em frente à câmera (nesse ponto lembra o Lula; aliás, Tito também foi metalúrgico). Não guardou ranço algum da ferocidade da luta nos tempos de partizan. A festividade de ano-novo passou a ser promovida pelo Estado como forma de ofuscar as festas religiosas, tanto os Natais católico (25/12) e ortodoxo (7/1) quanto o Ramadã islâmico. Alguns deles foram passados na rua, na praça pública, junto com os camaradas anônimos. Não tinha nojo do “cheiro de povo”. Tampouco descambava para o populismo barato. Na Iugoslávia não havia culto à personalidade. Sua imagem não era onipresente, como a de outros ditadores. As poucas estátuas do Tito estavam em museus ou parques específicos. A própria avenida então batizada em sua homenagem é, na verdade, uma rua pequena. E, quando sentiu que estava chegando ao fim, ele não pediu para ser mumificado nem depositado em algum palacete-mausoléu (como o de Dimitrov na Bulgária). Pediu apenas para ficar no jardim de inverno de sua casa, em Belgrado, e é lá que está.

O governo sérvio não inclui o local em seus folhetos turísticos, mas o túmulo do marechal é o ponto mais visitado de Belgrado até hoje.

O fato de, durante décadas, atrair filas quilométricas de admiradores e pessoas gratas pelo que ele fez, levando presentes e flores (não coroas fúnebres, mas das mais diversas cores) deu ao espaço o apelido de Kuća cveća – ou “Casa das Flores“, em servo-croata. Ontem, quando cheguei, havia um arranjo de rosas com uma fita vermelha junto à porta. Pelo estado das pétalas, tinha acabado de ser depositado.

É, né?

Kosovo, a terra onde se baba ovo

Enquanto a coisa está bombando em Gaza (perdão), aqui no Kosovo está tudo bem calmo. As primeiras páginas dos jornais ainda falam do ataque de sexta-feira em Mitrovica, o que é um sinal de que há poucas notícias pra publicar.

Eram pouco mais de 14h quando chegamos em Priština (que os albaneses chamam de Prishtinë, com tônica no TI). Viemos de van – igualzinho às que se pega pra ir da Central do Brasil até a Baixada Fluminense. A estrada de Mitrovica até aqui é tranqüila, plana, quase toda reta, de asfalto novo. Aliás, tudo no caminho é novo. As construções, sinalizações, casas e comércios têm aspecto de recém-inauguradas ou com menos de 10 anos. Claro, tudo aqui foi feito com dinheiro dos EUA e da UE, que passou a jorrar desde o início da ocupação, em 1999.

A gratidão dos albano-kosovares a esse investimento, que de fato melhorou a infraestrutura e gerou empregos, está bem exposta no número de bandeiras estadunidenses e européias que pontilham a estrada. Não só nas instalações militares (que incluem também de Portugal e dos Emirados Árabes Unidos) ou nas obras pagas com dinheiro estrangeiro (a reforma do parque deste bairro foi feita pela Itália), mas em lojas e estabelecimentos locais. Eles transformaram o Dia de Ação de Graças ianque em feriado nacional, chamado Thanksgiviong to US day. Existe ainda uma Avenida Bill Clinton, onde se exibe um gigantesco painel com o desenho do homem, bem no estilo Saddam. O que parece mais ultrajante para a Sérvia, porém, é que entre eles é mais fácil encontrar a bandeira da Albânia (vermelha com a águia “do Cavalera“) do que a bandeira da autoproclamada República do Kosovo (azul com o mapinha e estrelas em amarelo).

Na prática, isso sinaliza que o esforço do Ocidente tem sido não tanto em dar independência ao Kosovo, e sim em entregá-lo de bandeja à Albânia, um fiel aliado de Washington desde a ressaca dos anos 90 (Enver Hoxha, pirâmides, anarquia etc.). Por enquanto, não existe uma identidade kosovar distinta daquela dos albaneses que vivem na República da Albânia. A questão das bandeiras não é de identificação com a nação albanesa, e sim com o Estado albanês. Os jornais de Tirana circulam aqui. As livrarias têm livros de História da Albânia, não do Kosovo nem da Iugoslávia. Da mesma forma, não foi criada uma moeda própria, e o que circula livremente é o euro. Na praça principal, há uma enorme estátua de Skanderbeg (Jorge Castrioto), o herói da Albânia medieval – e, na verdade, é uma cópia do mesmo monumento em Tirana. E a maior rua de pedestres se chama Rua Nëna Terezë, em homenagem à Madre Teresa de Calcutá (que nasceu na Albânia mas era de etnia aromena – parentes próximos dos romenos e também latinos).

Até existe um projeto trocar a identidade do Kosovo por “Dardânia“, um suposto nome que a região teria tido no período pré-romano. Isso seria coerente, até porque “Kosovo” é uma palavra de origem eslava medieval. Em sérvio, Kosovo Polje significa “Campo dos Sabiás” (sabiá é “kos“). Foi aqui que os cristãos reunidos sob o Príncipe Lázaro, então monarca sérvio, perderam a batalha decisiva para os turcos em 1389. E foi aí que tudo começou.

Na mesma rua da Madre Tereza fica o escritório da OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa, ou Agência Européia do Imperialismo Econômico-Militar). É um prédio gigantesco, ofensivo de tão suntuoso. Mas o segurança foi muito simpático conosco quando disse que não podíamos tirar fotos.

Tirando ele, mais ninguém fala inglês aqui.

E, na verdade, albanês não é uma língua tão bizarra. Por exemplo: ninguém entendeu quando eu perguntei em inglês onde havia uma “bookstore“. Se eu soubesse que a palavra em albanês é “libraria“, teria perguntado em português.

Comi aqui um delicioso doce feito de figo seco, tâmaras e waffle. Chama-se “fiqa” e se pronuncia “fítscha”.

Estamos hospedados em um lugar que é parte-albergue, parte-pensão, comandado por um professor universitário aposentado. Fica em um bairro chamado Velania, muito perto da antiga residência de Ibrahim Rugova, o equivalente kosovar do Slobodan Milošević. É barato: 9 euros por noite, por pessoa, em um quarto com duas camas e TV. O chato é que é difícil chegar, pois o fato de haver meio metro de neve nas calçadas torna quase impossível andar a pé.

Comprei uma bota. Da Caterpillar. Falsificada.

[DISCLAIMER: Este post foi todo escrito offline, depois copiado-e-colado num computador com acesso discado. Por isso está tão longo. Volto a escrever quando tiver mais tempo. Qualquer coisa, meu cel aqui é +381 66 132659.]

Problema bilateral, solução unilateral

Agora há pouco, por volta das 11h15, um helicóptero da KFOR estava sobrevoando a parte sérvia de Mitrovica. Um helicóptero com metralhadora na ponta e um soldado de arma em riste pendurado na porta. Dava rasantes, parava, subia, voava em círculos e baixava de novo. Chegava até a ponte e voltava. Em terra, carros da polícia kosovar (com agentes albaneses) passavam em alta velocidade.

Nada que a gente no Rio já não tenha visto com o BOPE.

Clima de tensão? Só se fosse para eles. Nas ruas, as pessoas iam e vinham com suas vidas normalmente. Fazem compras na quitanda, cortam lenha, cozinham o almoço. Eu tinha acabado de subir até a igreja no alto da colina e vi os fiéis voltando da missa. Calmamente. A igreja, que é grande, tinha um suave cheiro de incenso por dentro. A decoração repete em diversos objetos o motivo a águia de duas cabeças (símbolo bizantino, por representar o império que olha ao mesmo tempo para ocidente e oriente, herdado por vários países ortodoxos, inclusive a Rússia e a Sérvia).

Em Mitrovica, essa águia anda degolada. Afinal, o helicóptero e os carros da OTAN só patrulham o lado sérvio. Esquecem de olhar para o oriente – e em geral é de lá que vem o problema.

Sim, estou no Kosovo

Eu na ponte que divide Mitrovica; ao fundo, o lado albanês

Eu na ponte que divide Mitrovica; ao fundo, o lado albanês

Estou no Kosovo hoje.

É fácil chegar. Pega-se um ônibus na rodoviária de Belgrado e voilà. Não precisa de passaporte, não precisa de documento de identidade, não precisa de carteira de nada. Nem de muito dinheiro. O que é preciso é apenas curiosidade e uma certa cara-de-pau para passar na frente dos soldados da OTAN na maior, fingindo que não é com você. Afinal, como dizem os nacionalistas e o Eixo Washington-Londres-Bruxelas tenta negar, o Kosovo é Sérvia.

Vim pra cá com a Darcie, uma canadense muito divertida (e corajosa) que conheci há apenas dois dias. Ela está vindo de uma jornada transiberiana, desde Xangai (começou em setembro, logo apórs a olimpíada), atravessou Rússia, os países bálticos, Polônia, Eslováquia, Hungria, Romênia, Sérvia, depois Croácia, Bósnia e voltou à Sérvia. Tudo isso com couchsurfing. Ela simplesmente encasquetou que vinha pro Kosovo pra fazer mochilão e perguntou se eu não queria companhia. Quando eu teria essa oportunidade de novo? Fiz a mochila e vim.

Tinha de ser canadense.

Eu e Darcie na neve

Eu e Darcie na neve

Ao chegarmos, um certo medinho do que viria pela frente foi superado pela adrenalina de ter uma aventurazinha no cenário de um dos mais recentes focos de tensão geopolítica do mundo. Perguntamos como se faz para chegar a Priština, a maior cidade (não capital!) da província. Soubemos que os ônibus só saem da rodoviária, que fica do lado albanês, e que para isso é preciso cruzar a ponte que funciona como “portal” entre os dois lados. Tem ônibus pra ir. E nem sempre tem ônibus pra voltar. Fomos andando até lá e, na hora de atravessar, vimos os tanques, os jipes, os carros brancos da ONU e os soldados da KFOR (a força “de paz” da OTAN) cantando e berrando, parecendo totalmente alegrinhos para quem, supostamente, está de serviço.

Perguntamos se podíamos atravessar e a resposta foi “Sure! Go ahead.

Blindados e jipes cruzam a ponte a toda hora

Blindados e jipes cruzam a ponte a toda hora

Na verdade, eles não incomodam muito. Só impressionam. A cidade de Kosovska Mitrovica, onde estou, é a primeira parada para quem vem pelo norte, de Belgrado. É uma cidade partida. O clichê pode estar batido para o Rio, mas aqui não tem como ser mais literal. Mitrovica (pronuncia-se “Mitrovitsa”) é atravessada por um rio sobre o qual só existe uma ponte. Uma margem, no norte, é de etnia sérvia. A outra, no sul, é albanesa. Quando eu lia isso nos jornais, artigos e enciclopédias, achava que era uma simplificação. Que era uma questão apenas de maioria de cada lado, e que naturalmente havia uma certa mistura.

Bem… não há.

O lado norte é 100% sérvio e o lado sul é 100% albanês. Desde a guerra de 10 anos atrás, não há mais nenhum sérvio no lado albanês e nenhum albanês no lado sérvio. Você atravessa a ponte (que é nova, bonita, recém-reformada e iluminada com refletores azuis), de apenas 100 metros, e tudo muda: o idioma, a cultura, a religião. Não se ouve uma palavra em servo-croata sequer no lado albanês. Ou nenhum prato sérvio no cardápio dos cafés e restaurantes. Ou nenhum ícone de santo ortodoxo que são comuns na margem sérvia; só há mesquitas. Os monumentos iugoslavos do lado albanês foram trocados por novos, muito kitsch, neo-realistas-socialistas, em aço fundido cromado. Até a moeda é diferente: o dinar sérvio não tem valor nenhum no lado albanês, onde só circula o euro.

E são apenas 100 metros de separação.

A cidade é muito militarizada. Os jipes e carros militares, tanto da ONU quanto da OTAN, circulam toda hora pra todos os lados. E os homens armados com fuzis são uma imagem muito intimidatória. Mas no lado albanês há cartazes dizendo “Thank you, USA! Thank you, England!“.

Dentro do restaurante do hotel

Dentro do restaurante do hotel

Estou hospedado no lado sérvio, num hotel muito simpático e barato (é hotel com preço de albergue). O lado albanês parece mais inóspito. É certamente mais “vivo” à noite: mais pessoas circulam nas ruas, brincam com a neve e tocam música. Mas um detalhe me chamou a atenção: só há homens nos cafés. As mulheres estão na rua, mas não entram. Provavelmente algum dogma muçulmano. Ou puro machismo.

Faz frio de uns -5 C lá fora, sob bastante neve, muito mais que em Belgrado. Há pilhas e pilhas de neve sobre as ruas, calçadas, bancos, monumentos. Mesmo assim, vi uma cena curiosa (do lado sérvio): um grupo de adolescentes, no pátio de uma escola, jogando uma pelada como se estivesse calor de verão. Às vezes a impressão que dá é que o povo sérvio é ainda mais louco por futebol que o brasileiro.

Hora da virada

O Goran é o de branco. Ele canta e toca sentado.

O Goran é o de branco. Ele canta e toca sentado.

Que me desculpem o espetáculo de fogos de Copacabana e seus dois milhões de fãs, mas nenhum réveillon poderia ser melhor que o meu. Na praça em frente ao Parlamento. Ao som de Goran Bregović. Sob menos oito graus centígrados. Enfiado entre uns 50 mil sérvios bêbados com bolas coloridas e garrafas de cerveja de plástico de 2 litros. Pulando e cantando música de ciganada, abraçando gente estranha e fingindo saber falar a língua com fluência.

Estava quente.

Foi como uma imensa GoEast. A céu aberto.

E a contagem regressiva foi uma rebobinada na mente que trouxe de volta tudo que se passou até aqui.

Deset.

A chegada, de trem, dois anos atrás.

Devet.

O pôr-do-sol no Kalemegdan.

Osam.

A despedida, Heathrow, o perrengue.

Sedam.

A saudade, o falar-de-Belgrado-pra-todos-os-amigos, a música, os postais no mural.

Šest.

A ECO vai aceitar um projeto de pesquisa que fala da Iugoslávia?!

Pet.

As aulas de sérvio.

Četiri.

Trabalhar pra ganhar dinheiro pra pagar a passagem pra voltar.

Tri.

A preparação pra volta, papelada, visto, câmbio.

Dva.

As confusões, a mudança, a correria.

Jedan.

A neve.

Nula.

Srećna nova godina!

Feliz 2009.