Mostra de Cinema Pós-Iugoslavo em SP

Pena que é em São Paulo. É assim que consigo resumir a sensação de ver a programação fantástica da Mostra de Cinema Pós-Iugoslavo, que começa amanhã (19/4), e que não poderei ver. Os 20 filmes serão exibidos apenas na filial paulistana da Caixa Cultural, na Praça da Sé, e infelizmente não virão para o Rio de Janeiro. É até irônico, já que foi esse mesmo centro cultural que promoveu a censura ao A Serbian Film, no ano passado.

E, além das projeções, haverá mini-cursos, palestras e oficinas com especialistas em cinema e questões dos Bálcãs. Uma delas será da antropóloga Andrea Carolina Schvartz Peres, que já entrevistei, provavelmente a pesquisadora brasileira mais dedicada à realidade balcânica pós-Yu (e também ao Jornalismo Internacional, que é a minha área).

O cineasta sérvio Zoran Đorđević, radicado em Caraguatatuba, também estará presente.

Na programação de filmes, está o maravilhoso Cinema Komunisto, de que já falei aqui no blog, além de jóias da cinematografia ex-Yu, como Karaula (2006, Rajko Grljić) – um filme FANTÁSTICO que sempre passo aqui em casa para os meus amigos – e os já clássicos Underground (1995, Emir Kusturica) e Antes da Chuva (1994, Milčo Mančevski).

É uma pena que não foi incluído o magnífico O Peso das Correntes (2009, Boris Malagurski), mas fica para uma próxima edição do evento.

Esta é uma oportunidade raríssima de conhecer mais a fundo as particularidades do “Oeste dos Bálcãs” (como se convencionou chamar a região da ex-Iugoslávia mais a Albânia, e excluindo a Eslovênia), que são muitas. A organização e a curadoria, a cargo de Raphael Fonseca e Sander Maurano, estão de parabéns. Pena que não virá para o Rio também.

A mostra vai até o domingo, dia 29/4, e a entrada é franca. O site oficial do evento é este: http://www.cinemaposiugoslavo.com .

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Uma homenagem emocionante à Hollywood do Leste

Cinema Komunisto

Cinema Komunisto

Durante quatro décadas, quando Tito estava no poder, a Iugoslávia foi não só um pólo de produção cinematográfica inigualável no Leste Europeu, como também serviu de locação para diversas filmagens de títulos hollywoodianos, com astros como Orson Welles, Richard Burton, Anthony Hopkins, Sophia LorenYul Brynner, Peter UstinovSidney Poitier e vários outros. Isso se deveu muito ao fato de o marechal, pessoalmente,  ser um cinéfilo de carteirinha, mas também à enorme variedade de paisagens do país – onde se encontravam tanto praias cristalinas quanto montanhas geladas e amplas planícies verdejantes.

Eu já sabia de parte disso graças ao Nikola Matevski. Mas muitas histórias e detalhes da saga do cinema iugoslavo estão no documentário Cinema Komunisto, que estreou em 2010 e passou no Brasil no festival É Tudo Verdade de 2011, no final do mês passado, tanto no Rio quanto em São Paulo. Não consegui ver, mas meus amigos que viram disseram que é lindo e saíram chorando.

O filme, dirigido por Mila Turajlić, inclui trechos de mais de 60 longas-metragens e traz histórias como a do projecionista Leka Konstantinović, que durante 32 anos exibiu filmes para Tito na sala de cinema pessoal do marechal – sem poder repetir nenhum, jamais. A relação que os dois desenvolveram remete a uma espécie de “Cinema Paradiso” da vida real – daí a brincadeira do título. A trilha sonora, pelos trechos que se pode escutar no site oficial, também é belíssima – e pode ser um empurrãozinho para ter levado tantos espectadores às lágrimas.

Outro personagem é Gile Djurić, o mantenedor do arquivo e dos estúdios do outrora grande Avala Films, uma espécie de Atlântida de Belgrado. Nas palavras do próprio press-release do filme, o que se pode fazer hoje é explorar ” as ruínas dos cenários dos filmes esquecidos e conversar com diretores, produtores, agentes” sobre como, graças a um apoio irrestrito do Estado, o cinema iugoslavo pôde chegar longe.

Cinema Komunisto também debate o papel do cinema na construção da identidade de um país que, na prática, era uma colcha de retalhos multiétnica e com diversidade religiosa e lingüística. Mas, nas telas, eram todos iugoslavos, levados a se identificar com os épicos de partizans – filmes sobre as guerrilhas que expulsaram os nazistas e se tornaram um gênero próprio do cinema iugoslavo. Embora a Iugoslávia não exista mais no mapa-múndi, ainda sobrevive na forma da fantasia cinematográfica produzida sobre ela.

Ou, como sugere o slogan do filme:  “Quando a História tem um roteiro diferente dos seus filmes, quem não inventaria um país para se iludir?

Os iugoslavos, sim.

Cartaz do documentário numa rua de Belgrado

Cartaz do documentário numa rua de Belgrado

(O filme ganhou uma menção honrosa no É Tudo Verdade. Resta torcer para o filme entrar em circuito no Brasil ou ser lançado logo em DVD)