Mais um relato de viajante brasileiro na Sérvia

Volto a citar um post do site Mochileiros.com que contém um relato de brasileiro que esteve na Sérvia, desta vez postado em fevereiro deste ano por um turista de Bragança Paulista (SP). Leiam o que ele escreveu e percebam como há muito que nós ainda temos a descobrir sobre esse canto da Europa. (reproduzo o texto na íntegra, todo em <sic>, ou seja, incluindo alguns erros de forma e conteúdo, além de tradução – alguns nomes não estão nem em servo-croata nem em português, mas sim em inglês, o que não faz nenhum sentido)

Estou novamente de viagem, mas quero postar algum relato e colaborar com algum brasileiro que deve estar indo à Sérvia neste momento. E antes de mais nada, fica meu apelo à Equipe de Moderação: acho lamentável que a Sérvia não tenha uma seção só pra ela. Reduzir a Sérvia a um tópico somente… poxa, a Sérvia tem tanta coisa! Quem pensa que o país se resume a Belgrado, engana-se. A Sérvia também tem Nis, Kopaonik (que é um parque nacional, na verdade), Novi Sad, Kragujevac, Subotica…

Mas enfim, farei um breve resumo das principais atrações de Belgrado e também dicas sobre o país (como a necessidade de um visto)!

VISTO
Ainda há necessidade sim de visto! Para alguns países como o México, por exemplo, a Sérvia permite a entrada por até 30 dias. No entanto, para o brasileiro entrar no território sérvio, tem que ter o visto! Para conseguir não tem dificuldades: basta enviar seus documentos (passaporte, foto, comprovante de pagamento e formulário de requerimento do visto preenchido) para Brasília. Se quiser a informação oficial, mande um email para embaixadaservia@terra.com.br com o título “Ref.: Visto” e eles te mandarão todas as informações (quer você seja estudante, turista ou está indo visitar algum parente).

COMO CHEGAR
Eu fui de avião, pela Jat Airways. Paguei algo em torno de 120 euros, voando de Berlim. Há também como chegar de trem, porém o preço é bem salgado. Quem quiser tentar low cost companies, tem a Wizz Air.

Kopaonik

VERÃO/INVERNO
Fui no inverno. E fiz coisas que só poderiam ser feitas no inverno… como a ida ao Parque Nacional de Kopaonik (uma das montanhas de ski na Sérvia). No entanto, perdi a oportunidade de ir aos boat clubs (baladas flutuantes) no rio Danúbio, que só funcionam no verão. No verão, temos também bungee-jump na ilha Ada Ciganlija (uma das ilhas no rio Danúbio) e vôo de balão por Belgrado. Perdi isso!

TRANSPORTE
O meio de locomoção básico em Belgrado são os trans (bondes). Porém, os troleibus também ajudam bastante. O ticket para qualquer um deles custa 60 dinares (60 centavos de euro). A partir de fevereiro de 2012, começou um novo meio de validação dos tickets dentro do tram/ônibus. Agora está mais difícil para burlar, embora não impossível. No entanto, garanto que você não encontrará transporte mais barato que esse em toda a Europa!
PRINCIPAIS PONTOS TURÍSTICOS

Praça da República/Republic Square/Trg Republike
Principal ponto de encontro dos belgradenses (praticamente todas as linhas de ônibus param lá). Localizada no centro da cidade, é um local onde você matará vários coelhos com uma cajadada só. Além da praça em si (que conta com um monumento do príncipe sérvio Mihailo Obrenović III), ficam localizados nela ainda o Museu Nacional/National Museum, oTeatro Nacional/National Theater e o Centro Cultural (este último é um prédio envidraçado que tem galerias de arte nos andares de cima, um centro de informações turísticas no subsolo e no térreo tem o melhor local para comprar souvenirs – se você quer comprar camisas legais de verdade, compre aqui! Os camelôs só vendem camisas horríveis).

Knez Mihailova
É a rua dos pedestres. É um “calçadão” do lado da Praça da República. Repleta de lojas de roupas, perfumes e sapatos. A rua de cima da Knez Mihailova conta com ótimos pubs (aconselho o Irish Pub). Na rua de baixo tem uns cafés muito bons. Aconselho o Illegal Bar (próxima à Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado) – o bar é, na verdade, debaixo da livraria. Entre na livraria e pergunte sobre o bar. Eles te indicarão o que aparentemente é um porão. Mas chegando lá você encontra um bar com dois andares, telão, banda etc… Nos dias de jogos é muito bom! Ah!, você ainda pode pegar algum livro para ler, de graça.

Kalemegdan Park e Belgrade Fortress
A Knez Mihailova leva à principal atração de Belgrado: o Kalamegdan Park. O parque é, na verdade, mais mesmo um forte (Belgrade Fortress) que foi utilizado há centenas de anos… Um passeio por lá é obrigatório para qualquer um que vai a Belgrado. Além de uma construção super histórica, de lá você vê o Zemum (bairro histórico na Nova Belgrado) e a confluência dos rios Danúbio e Sava. Além disso, o Kalamegdan Park também conta com o Museu Militar, duas igrejas ortodoxas (Rose Church e Church of St. Petka) e um zoológico (que não tem nada demais). Se pedir informações ao guia dentro da Rose Church, saberá que as pinturas da igreja foram feitas com o concreto ainda fresco (típico das igrejas ortodoxas) e que ali foi um antigo depósito de artefatos militares – é por isso que balas constituem os lustres (a única igreja no mundo com balas em sua constituição).

Saint Sava Temple
Me disseram na Sérvia que é o maior templo cristão ortodoxo no mundo. Se é verdade, não sei. Porém, até mesmo os flyers turísticos que eu recebi confirmavam essa informação. No Natal sérvio (7 de janeiro), as pessoas vão para a frente do templo aguardar a meia-noite. Os ramos de folhas secas que eles levam na mão foram “benzidos” nas igrejas ortodoxas pela cidade e ficarão durante uma semana sob a mesa da copa, para trazer sorte à família (alguns motoristas colocam nos parachoques dos carros). A igreja é linda. Knez Miloša É a rua das embaixadas. É lá também que estão os antigos prédios bombardeados pela OTAN (em 1999).

Zemum e Ušće

Aos que não sabem, Belgrado é divida em Nova e Velha Belgrado. Zemum é um bairro antigo, histórico, na Nova Belgrado. Além de casas com um arquitetura antiga, um calçadão às margens do rio Danúbio, cafés/bares/restaurantes flutuantes, ruas de paralelepípedos, igrejinhas ortodoxas, tem também o que os belgradenses chamam de a melhor panqueca da cidade! Se informe sobre a Panqueca do Pinóquio! Ušće é a região de encontro dos rios… de lá é onde você tem a melhor vista de todo o Belgrade Fortress. Vale ir para tirar uma foto!

Tašmajdan Park
Um dos parques mais bonitos da cidade. Vale à pena uma visita. Junto à ele, tem a Igreja de San Marco, que nunca terminou de ser construída (por fora), mas por dentro é bem bonita.

Igreja de San Marco/St. Mark’s Church
É a segunda principal igreja ortodoxa em Belgrado. Enquanto alguns dizem que ela está em reforma, há quem diga que ela nunca terminou de ser construída. Vale uma visita.

Nikola Pasic Square, Prefeitura de Belgrado e Parlamento Sérvio Como em outros países, o Parlamento nacional é mais um prédio grande com uma arquitetura diferente, estátuas, jardins… Em frente ao Parlamento, tem a Prefeitura e uma praça. Dar um pulo lá para conhecer e tirar umas fotos é válido!

Nikola Tesla Museum
Museu do Nikola Tesla, o homem que aprendeu a como usar a eletricidade. Sem dúvida alguma, você precisa ir lá. Mas o principal: vá lá antes e pergunte sobre os horários de visita dirigida, caso contrário verá simplesmente uns objetos dos quais não entenderá nada. Mas com o guia (tem duas visitas dirigidas por dia, uma em inglês e outra em sérvio) ele liga os objetos e você “interage” com eles. Eu pude tocar a eletricidade, vi raios saindo da minha mão, o cabelo das mulheres subindo e um super transformador jogando raios pela sala inteira. Vale MUITO a pena uma visita guiada! Além disso, há também uma bola dourada com as cinzas do próprio Nikola Tesla – o mais próximo que você chegará dele. Enfim, o museu é bem interessante. Estudante paga meia.

Ada Ciganilija
Uma ilha no rio Danúbio, para aqueles que forem a Belgrado no verão. Tem praia, parques, bares e cafés interessantíssimos. Como eu fui no inverno, só pude aproveitar os cafés. No verão tem bungee-jump e vôo de balão.

Avala Tower e Avala Mountain
Acho que foi o passeio mais top que eu fiz em Belgrado. A Avala Tower fica na Avala Mountain. Subir a montanha à tarde (não muito tarde) pelas trilhas ou pelo asfalto e depois subir na torre é beeem legal. Tive um dos melhores momentos da viagem nesse passeio… o percurso até a torre é bem agradável. Como é afastada da cidade (tem que pegar tram e ônibus), o ar da montanha é bem puro. É comum os belgradenses irem à montanha para fazer um churrasco, passarem o dia, descansarem um pouco… E a vista do torre é incrível! A entrada da torre é 100 dinares (1 euro) – ingresso barato! Estudante paga meia.

E Belgrado ainda reserva muitas outras coisas… mais tarde dou mais dicas (e posto fotos). Falei só as principais. Fiquei na Sérvia um mês! Se estiverem com qualquer dúvida, desde de dinheiro à hospedagem, alimentação etc, podem me perguntar. Terei o maior prazer em responder. Quem quiser me enviar um email é jcmvaldivia@hotmail.com. Abraço!

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Privataria é pouco

Se nós, que passamos por privatizações, já reclamamos, imaginem os sérvios. Depois do fim do socialismo e da desintegração da Iugoslávia, eles tiveram suas empresas não só privatizadas, mas vendidas para estrangeiros. Todas, praticamente.

Os bancos são alemães, italianos ou gregos. As telefônicas são austríacas. O comércio de varejo é também austríaco ou francês. E, na semana passada, o governo acertou a venda da NIS, a companhia estatal de petróleo, para os russos (a companhia aérea, JAT, pode seguir o mesmo caminho).

Ou seja: os sérvios aprendem na escola que seus grandes heróis, como o Jorge Negro e Tito, pegaram em armas para garantir a independência do país. Para expulsar turcos, austríacos, húngaros, alemães, italianos, depois russos (Stalin, 1948) e tantos mais que tentaram fincar as garras e submeter a Sérvia a seus interesses ou a um estado de (sem trocadilhos) servidão. Pegaram em armas e conseguiram.

E agora vem o pessoal no poder e desfaz o trabalho todo.

O que deve ser mais humilhante, porém, é pensar que, apenas 20 anos atrás, as empresas eram não só nacionais, mas submetidas ao controle dos próprios funcionários. A geração dos pais dos jovens de agora estudou e começou a vida profissional sob a autogestão. Periodicamente, e sempre que necessário, os empregados de uma empresa se reuniam no escritório, na repartição, no chão-de-fábrica, para avaliar o trabalho e tomar decisões. Você discutia com o seu colega quais escolhas deveriam ser feitas, quais compras e aquisições, quais promoções e demissões, definia salários, remunerações extras e adicionais por produtividade. Debatia de igual para igual com um chefe, com um subordinado, e eram todas pessoas do mesmo nível que você, com quem se podia jogar bola (ou bocha!) no fim-de-semana, tomar uma rakija ao final do expediente. E, o melhor: não tinha patrão!

Agora tem. E os patrões estão em Viena, Berlim, Paris e Moscou.

“Em Belgrado, só ficamos nós.”

Como o terrorismo me deu uma noite em Paris

Segunda-feira, 8 de dezembro, cerca de 19h30. Chego no aeroporto, depois de um engarrafamento habitual na Linha Vermelha, chego no hiperonomástico Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro Antônio Carlos Jobim Galeão da Silva Júnior a tempo de fazer meu check-in no vôo da AirFrance para Paris, de onde seguiria pra Belgrado. Vôo que está atrasado. Mais de uma hora.

– É, você vai perder sua conexão em Paris.

A moça do balcão da AirFrance primeiro me assusta, pois em uma fração de segundos passa pela minha cabeça uma seqüência cumulativa de desastres: vou perder o vôo para Belgrado, vou perder o dinheiro da passagem, vou deixar de viajar e de fazer a pesquisa, vou ter de fazer uma dissertação fraquíssima, vou passar o fim de ano frustrado, e…

– Você vai ter que passar a noite em Paris.

Eu ouvi bem? A AirFrance vai me dar voucher de hotel e comida em Paris? Aquela Paris? Tipo a capital da França? A cidade-luz que eu tinha dito que deixaria pra conhecer quando tivesse 50 anos, cabelos brancos e filhos? A Paris?

É. Ela mesma. Como o intervalo de conexão era de menos de 45 minutos e eu teria ainda que mudar de terminal (para o que é preciso pegar um trem (!!) de um para outro), não haveria jeito e a companhia seria forçada a me abrigar na cidade até o próximo vôo, no dia seguinte. Sabendo disso de antemão, a atendente no Brasil despachou as malas somente até Paris, para evitar que elas seguissem viagem e eu ficasse. A AirFrance certamente estranharia isso, mas era só explicar, segundo ela, que o procedimento foi feito para contornar o risco de extravio. E então embarquei, certo de que o atraso de um dia na chegada a Belgrado não seria nada comparado com o presente que a sorte me oferecia.

Mas não foi tão fáci assim.

Talvez tenha sido o vôo mais tranqüilo que já tive, provavelmente porque foi embalado por um Dramin e pelo sonho de pisar no jardim da Notre-Dame, passar debaixo do Arco do Triunfo, subir na Torre Eiffel, ser atropelado na Praça da Estrela, cuspir no Sena e rever o Olivier, meu único amigo francês – que conheci exatamente em Belgrado.

Quando o avião se aproximava do colossal Aeroporto Charles DeGaulle (é maior que Heathrow, não é?), a primeira má notícia:

– Senhores passageiros, temos o prazer de informar que estamos chegando a Paris 30 minutos antes do horário previsto.

Droga. Eu não ia perder a conexão.

Fiz o possível para desembarcar sem a menor pressa. Fui o último a descer do avião, caminhei pelo corredor a passos lentos, não andei na esteira, dei uma passada no banheiro, desamarrei os sapatos, vesti a calça de moletom por baixo do jeans, reamarrei os sapatos, tomei um café, li a Bíblia, peguei as bagagens e entrei em território francês. Tive meu passaporte carimbado, a mala foi aberta, o agente da alfândega desconfiou dos quatro pacotes de café Pilão que estava levando para a mãe do Stevan. Que mandasse um cachorro cheirar porque, se eu tivesse cocaína escondida dentro do café, um olfato humano não iria detectar. E então finalmente cheguei no saguão e procurei o guichê da AirFrance pra explicar o que tinha acontecido e pedir o voucher de hotel.

– Mas monsieur, felizmente o seu vôo para Belgrado também está atrasado. O senhor pode embarcar.

Olhei o painel de vôos. Era verdade. Eu ia ter de voar pra Belgrado naquele dia. Frustrado, peguei toda minha bagagem de novo, andei todo o corredor enorme de novo, fui no banheiro de novo, tomei uma coca, li o Alcorão, e aí fui pegar o trenzinho pro terminal 2B, de onde saía o vôo da JAT (Jugoslovenski AeroTransporton behalf of AirFrance) para Belgrado.

Estava nevando.

Vi neve pela primeira vez na vida. Deslumbre típico de brasileiro. Senti a Europa me recebendo com neve, de presente. E a neve é tão, tão, tão… branca. Tão, tão, tão… fina. Tão, tão, tão… gelada. molhada. incômoda. desagradável. E por que diabos que ninguém, quando vai falar de neve, dá a descrição exata do que é? Eu não sabia se os tais “flocos” de neve eram como pedrinhas minúsculas de gelo, ou como bolotas macias, ou como gotas congeladas. Não. Neve é como gelo de congelador. Aquele mesmo que a gente pega da geladeira quando é criança pra jogar nos outros e brincar de… neve. É isso. Neve é gelo de congelador.

E aí entro no terminal 2B, para um soldado francês me receber logo na porta, de fuzil em punho e barrete vermelho, falando algo que soava como isso:

– Non, non, monsieur, ne se peut pas passer! Bagage abandonnée!

Bagaje abandonê. Uma mala. Uma p%$%¨%$ de uma mala. E eles já suspeitam logo de bomba, cercam a área, evacuam o terminal, chamam o exército, o esquadrão anti-bombas, fazem o escarcéu todo. E lá fiquei eu, junto com uns 80 outros passageiros, esperando por quase uma hora, até chegarem os caras em grande estilo SWAT, com seus coturnos e casacos pretos com um enorme “POLICE” nas costas. De repente, mandam todo mundo tapar os ouvidos. Uma explosão. Detonaram a mala. A coitada da mala. Que não tinha bomba nenhuma, é claro. Só fitas VHS e DVDs. Com certeza um coitado de um muambeiro largou a mercadoria pra trás quando percebeu que ia ser pego. E eles acham logo que é bomba.

Bomba, pra mim, foi ver que, mesmo depois disso tudo, a porcaria do avião da JAT continuava na pista. Mas não tinha ninguém no balcão do check-in, que já estava encerrado desde horas antes. Saí de novo da França, tive meu passaporte carimbado de novo, e fui lá ver o que conseguia. Porque, se eu desse “no show” (não-comparecimento), não teria direito a voucher nenhum. Então fui ao balcão e pedi que chamassem alguém. Veio a moça franco-sérvia me atender e, depois de confabular no nextel, me deu o seguinte veredito:

– Olha, o senhor pode embarcar agora, mas não temos como despachar a bagagem agora. Então o senhor vai, as malas ficam. E nós mandamos depois pro seu endereço em Belgrado.

Rá. Rá. Rá. Faz-me rir. Confiar na Jugoslovenski AeroTransport? De que mandariam as malas depois? Com metade da minha vida dentro? Mas nem por uma baguete. Eu fico.

– Tudo bem. Então basta voltar ao terminal de onde veio e passar no guichê da AirFrance que eles lhe darão um voucher.

E assim saí, relaxado, passando mais uma vez pelo controle de passaporte e levando o terceiro carimbo da República Francesa no mesmo dia (isso depois pode dar merda), mas desta vez certo de que ia conhecer a cidade-luz, a capital da França, tipo aquela Paris, de graça, às custas da AirFrance.

Feliz da vida.