‘Homem-ímã’ vira atração na Sérvia

Na terra de Nikola Tesla, é até irônico aparecer um caso assim.

Publicado no jornal O Dia online.

Jagodina (Sérvia) – O sérvio Sibin Ivanović, de 66 anos, é o mais novo membro conhecido da família das ‘pessoas-ímã’. Depois dos garotos-ímã da Croácia e de Mossoró, no Rio Grande do Norte, Ivanović é o mais velho a atrair metais para seu corpo.

O fenômeno começou a ocorrer depois que médicos aplicaram choque de alta voltagem para fazer o coração do sérvio – parou de bater após complicações durante uma operação de úlcera no estômago – voltar a bater e salvar sua vida.

Sibin Ivanović ficou magnético após choques elétricos

Sibin Ivanović ficou magnético após choques elétricos

Ele, que mora na cidade de Jagodina, na Sérvia, diz ter notado a nova “habilidade” quando descansou o telefone celular no peito após uma ligação e, assim que levantou da cama, o aparelho não caiu. Depois descobriu que talheres e pratos de metais também eram atraídos por seu corpo.

Médicos fizeram exames e confirmaram a estranha tendência de atração de metais. “Eles não sabem explicar, mas eu tenho agido como um ímã desde que tomei o choque elétrico”, disse Sibin, ao site Metro.co.uk.

“Espero que este efeito ímã funcione com mulheres também. Mas acho que isso só acontecerá se elas usarem um monte de joias”, sonha.

Dois jornalistas brasileiros na ex-Iugoslávia

Os coleguinhas Fernando Figueiredo Mello e Diogo Lucato (repórter e fotojornalista, respectivamente), formados pelas PUCs de SP e RS, estão desde junho em viagem pela ex-Iugoslávia, agora quase no finalzinho, e registram tudo no blog balcânicas. Demorei a encontrar o blog deles, mas ainda bem que o fiz enquanto ainda estão lá. São textos curtos e sensatos, acompanhados de fotos com uma perspectiva singular. Já passaram por Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia, estavam ontem no Kosovo (é O Kosovo, com artigo masculino, pelamor) e chegaram hoje à Macedônia – última parada no itinerário. Eu também estive em vários desses lugares (principalmete Belgrado e Kosovo), mas o roteiro deles é bem maior.

(o texto tem uns errinhos de português e uns clichês de política externa ocidental, mas no geral é muito bom)

Recomendo muito a leitura atenta de todos os posts e a apreciação das belas imagens desse lugar arrebatador.

Bar Tito, em Sarajevo - um dos vários bares iugonostálgicos na ex-Yu

Bar Tito, em Sarajevo - um dos vários bares iugonostálgicos na ex-Yu

Destruição causada pela OTAN em Belgrado, há 12 anos

Destruição causada pela OTAN em Belgrado, há 12 anos

Sede da UNMIK, a missão da ONU no Kosovo

Sede da UNMIK, a missão da ONU no Kosovo

Patriarcado Ortodoxo de Peć, no Kosovo

Patriarcado Ortodoxo de Peć, no Kosovo

(Todas as fotos são de Diogo Lucato, publicadas no balcânicas)

Número um do mundo, ameaça política?

Novak Đoković ao vencer o Aberto da Austrália

Novak Đoković ao vencer o Aberto da Austrália

Com atraso de quase um mês, quero registrar aqui a homenagem ao tenista sérvio Novak Đoković (pron. “NÔ-vac DJÔ-co-vitsch“), que no dia 4 de julho sagrou-se campeão no torneio de Wimbledon deste ano, depois de já ter vencido o Aberto da Austrália em 2008 e 2011 e a Copa Davis de 2010, entre outros títulos que o colocaram no topo do ranking mundial da ATP, à frente do catalão Rafael Nadal e do suíço Roger Federer.

Não conheço nada de tênis, mas imagino que deva ser o maior prestígio desse esporte ser considerado “o número 1″ do mundo. Pelo que vi na Sérvia, o tênis é um esporte realmente popular no país, e não elitista como aqui. Vários amigos que conheci lá (e também sérvios que conheço no Brasil) adoram e jogam tênis, acompanham os torneios e, não por acaso, admiram Đoković. Ele realmente vem sendo considerado um herói nacional na Sérvia - onde é conhecido pelo apelido Nole -, muito mais do que o Guga Kuerten para os brasileiros – talvez no patamar do Ayrton Senna, a título de comparação, e ainda um pouco menos que o Pelé.

Também conheço muitíssimo pouco da personalidade de Đoković. Sei que ele recuperou para os sérvios (e, de alguma forma, os ex-iugoslavos, o que inclui croatas, eslovenos, bósnios e macedônios) um certo orgulho pelo tênis que não se via desde a época da Monika Seleš (pron. “se-LÊSH“, não “séles“), que, pra quem não se lembra, é uma tenista sérvia. Li que ele começou a jogar e foi descoberto ainda criança, na época das guerras da Iugoslávia, nos anos 1990, e que hoje em dia mora em Mônaco – existe essa ligação afetiva curiosa dos iugoslavos com o principado, como eu também tenho.

O que me preocupa com ele são suas posições políticas. “Nole” já deu a entender várias vezes que tem certo apreço pelo nacionalismo conservador, o que em termos de Bálcãs é sempre algo alarmante. Em cerimônias anteriores em que foi recebido pela multidão na praça do Parlamento (Skupština, pron. “scúpchtina“), em Belgrado, o tenista fez o famigerado sinal dos três dedos (tri prsta), gesto tradicional de nacionalistas que representa a Santíssima Trindade Ortodoxa. Muito malcomparando, no contexto sérvio, digamos que isso equivale a levantar a mão pra fazer “Heil, Hitler”.

Fãs de Đoković fazendo o sinal dos três dedos

Fãs de Đoković fazendo o sinal dos três dedos

Đoković também recebeu condecorações tanto da Igreja Ortodoxa Sérvia, por enviar ajuda financeira e fazer campanha pela preservação dos templos sérvios no Kosovo, quanto da SNDA (Serbian National Defense America), entidade da diáspora sérvia nos EUA, baseada em Chicago, que reúne muitos veteranos tchetniks (četnici), monarquistas nacionalistas que lutaram contra os nazistas e contra os partizans de Tito na Segunda Guerra.

Além desses flertes com setores perigosos da política sérvia, o campeão também gosta de tirar uma onda de cantor e artista pop. Já apareceu em programas de TV como a final nacional do Eurovision (uma espécie de precursor do American Idol que é a grande sensação em toda a Europa, desde os anos 50) e num clipe do DJ francês Martin Solveig, junto com Bob Sinclair. Também sempre pega o microfone pra puxar hinos com a multidão quando discursa do alto do parlamento.

Tenho pra mim que, quando acabar a carreira esportiva – que, no tênis, é um tanto quanto curta - Novak Đoković deve querer entrar para a política. O medo é ele ser cooptado por algum partido radical ou movimento retrógrado que se aproveite do carisma natural que o tenista tem para amealhar votos e ganhar poder. Se o rapaz tiver cabeça boa, não se deixará usar. Por outro lado, se as idéias nacionalistas forem realmente sua convicção, é melhor que “Nole” fique bem longe do poder.

Nole, apelido de Đoković: flerte com o nacionalismo

Nole, apelido de Đoković: flerte com o nacionalismo

Choques no Kosovo levam a retirada de policiais albaneses da “fronteira”

A tentativa de policiais albano-kosovares de tomarem o controle nos postos de fiscalização no limite entre a província rebelde do Kosovo e o território de fato governado pela Sérvia, na madrugada de terça-feira (25/7), gerou uma pequena crise na região e terminou hoje (27/7) com a retirada das “forças especiais” kosovares (apoiadas pela OTAN).

A ofensiva partiu do governo albano-kosovar ao enviar policiais e soldados de suas “forças especiais” (criada em 2009) para ocupar os postos de controle em Brnjak e Jarinje, dois vilarejos no norte da província, junto à linha de demarcação com o território sob soberania sérvia. A tentativa foi frustrada por moradores sérvios, com apoio da EULEX (tropas da União Européia), que impediram a ocupação. Na tarde de terça-feira, os dois lados entraram choque, com policiais e moradores saindo feridos. Tropas da OTAN foram mobilizadas para o local para impedir novos enfrentamentos.

Buehler, comandante da OTAN, com o negociador sérvio

Buehler, comandante da OTAN, com o negociador sérvio

Há poucos dias, o governo albano-kosovar, em Priština, baixou uma lei para restringir a entrada de produtos de origem sérvia no Kosovo. Mas a lei (assim como a própria “independência”) não é aceita pelos sérvios kosovares nem pela União Européia.

O norte do Kosovo tem população de maioria sérvia e é separado do sul, de maioria albanesa, pelo curso do rio Ibar. O ponto principal dessa divisão é a cidade de Kosovska Mitrovica (pron. “mitrovitsa”), cortada ao meio pelo rio e repartida entre o norte sérvio e o sul albanês. A travessia entre um lado e outro da cidade é livre.

O governo em Belgrado enviou uma missão de negociadores que conseguiu convencer o comando da OTAN, sob o alemão Erhard Buehler, a fazer os policiais kosovares a se retirarem. No entanto, duas horas depois da retirada, tentaram novamente apoderar-se de um dos postos de fronteira. O presidente da Sérvia, Boris Tadić, já avisou que nem cogita usar a força.

“Apelo a todos que mantenham a calma e não respondam a provocações”, disse Tadić, segundo a imprensa local. “Temos de continuar o diálogo e restaurar a paz. Garantir a paz é o mais difícil. é muito mais fácil afogar-se de novo em guerra e violência”.

A Sérvia pediu uma reunião de emergência no Conselho de Segurança da ONU para tratar do caso.

Eu passei por um desses postos de controle em fevereiro de 2009, quando voltava do Kosovo, onde realizei uma reportagem para a revista Carta Capital. Na ocasião, não tive problemas. Só os guardas que demoraram com o meu passaporte mais que com todos os outros, porque foram checar se o Brasil reconhecia ou não a ilegítima “República do Kosovo”.

Terrorista da Noruega cita radicais croatas como exemplo de intolerância

O terrorista e assassino confesso norueguês Andreas Breivik, autor dos ataques de sexta-feira passada na Noruega, fez comentários sobre as relações entre sérvios e croatas nos Bálcãs e elogiou a extrema-direita da Croácia como “exemplo” de limpeza étnica, de ação contra muçulmanos e de anti-multiculturalismo.

Em seu manifesto de mais de 1,5 mil páginas, Breivik disse que a Europa pode contar com os partidos xenófobos croatas HSP (Hrvatska Stranka Prava, ou Partido Croata dos Direitos) e HDSSB (Hrvatski demokratski savez Slavonije i Baranje, União Democrata Croata da Eslavônia e Barânia) para “livrar o continente dos muçulmanos”, segundo o jornal Croatian Times.

A Eslavônia e a Barânia são duas regiões do extremo leste da Croácia, perto da Sírmia, junto à fronteira com a Sérvia.

Segundo o terrorista, todos os povos cristãos da Europa (sejam católicos, como os croatas, ou ortodoxos, como os sérvios) devem se unir para expulsar os muçulmanos de territórios como o Kosovo e a Bósnia.

“Toda animosidade entre dois países cristãos, como a recente guerra entre a Croácia e a Sérvia, será considerada animosidade entre a futura aliança cristã conservadora da Europa e será punida severamente”, escreveu Breivik – apesar de a Sérvia e a Croácia nunca terem entrado em guerra desde a Idade Média.

Vale lembrar que, à diferença do que ocorreu na Sérvia, o Estado croata apoiou e até hoje apóia oficialmente ações radicais de intolerância cultural, étnica e religiosa – como, por exemplo, a reforma lexical que o dialeto croata sofreu para extirpar palavras consideradas “sérvias” e justificar a existência de um suposto “idioma croata”. Enquanto a Sérvia envia criminosos de guerra para Haia, na Croácia criminosos de guerra são recebidos com honras de Estado.

O partido HSP se disse “horrorizado” pelo fato de Breivik ter mencionado a legenda e lembrou que apoiou causas sérvias, inclusive condenando a agressão da OTAN contra a Sérvia em 1999. Já o HDSSB afirmou não entender por que um “monstro” incluiu o partido na lista de entidades “amigas”, comparando os ataques da Noruega aos massacres de Srebrenica e Vukovar (cidade na Eslavônia croata atacada na guerra dos anos 90).

Detalhe: o nome do presidente do HSP é Danije Srb – e “srb” significa ‘sérvio’.

Novo blog sobre a Sérvia

Acabei de descobrir o blog Bem Vindo à Sérvia, que está no ar desde junho.

Pelo que se pode ver, é escrito por sérvios que falam português e brasileiros que moram em Belgrado. Já começou bem, com uma entrevista com minha amiga Tetê (do Wish I Could Reach You in Belgrade), a DJ que faz a festa Go East no Rio.

Além dos posts sobre a cultura sérvia, sobre músicas do Eurovision e os laços Sérvia-Brasil, e eles ainda fazem serviço de utilidade pública, com aulas online de servo-croata! Genial.

Sejam bem-vindos à blogosfera dos brasileiros que amam os Bálcãs!

A Serbian Film – a polêmica

Há um filme circulando há pouco mais de um ano ano em festivais ao redor do mundo que vem causando polêmica por onde passa. Já foi censurado, cortado, mutilado, proibido, banido e elogiado. É de terror. É pornô. E é sérvio.

Chama-se A Serbian film (nada podia ser mais simples, nada podia ser mais óbvio, nada podia ser mais curioso) e é dirigido por Srđan Spasojević (“sârdjã spassoiêvitsch”), um cineasta de 35 anos em seu primeiro trabalho. Ele cita como suas grandes influências diretores como David Cronenberg, John Carpenter e Roman Polanski, todos que deram contribuições ao gênero terror, cada um à sua maneira.

Na distribuição brasileira (da Petrini Filmes), está ganhando o péssimo subtítulo de “Terror Sem Limites” – não sei por que não bastava traduzir como “Um filme sérvio”. O título original é simplesmente Srpski film (sempre com F minúsculo) e o cartaz mostra o contorno do mapa da Sérvia escorrendo sangue sobre um fundo branco. Minimalista e cruel.

Quem já viu o filme (acabou de passar no novo Festival Lume, em São Luís do Maranhão) descreveu como “um dos filmes mais tensos que já vi na vida, senão O mais”; ”sempre achei que era lenda urbana, mas qdo vi esse troço…”; disseram que “dá náusea, indignação, asco… mas é bom”.

Ainda não vi, mas será preciso pra conferir se há mesmo razão na controvérsia. Não parece ser do nível do light francês “Irreversível” (tem que ser muito carola-da-Tijuca pra chocar com esse filme, que não tem absolutamente nada de mais), mas sim do sueco “Ett hål i mitt hjärta”, ou “Um Vazio no Meu Coração”, de Lukas Moodysson. Em todas as sessões, mais da metade da platéia saía antes do fim.

Isso tudo, claro, além do simples fato de ser um filme sérvio.

 

O Grupo Estação vai exibir A Serbian Film em sessão extraordinária no Cine Odeon, sábado 23/7 às 22h (Rio de Janeiro). Estarei lá.


Publicado no G1

Censurado na Europa, filme sérvio tem sessão proibida em evento no Rio

A Caixa Econômica Federal proibiu a exibição do filme sérvio “A Serbian Film – Terror sem limites”, do diretor Srdjan Spasojevic, que seria exibido no próximo sábado (23), como parte do festival RioFan, no espaço cultural do banco no Rio de Janeiro.

O longa-metragem de terror já gerou polêmica na Europa, tendo cenas censuradas na Espanha, Reino Unido e Noruega por supostamente mostrar pedofilia e necrofilia.

A organização do RioFan anunciou nesta quinta-feira (21), por meio de nota oficial, que a sessão será transferida para o cinema Odeon, no Centro do Rio, no próprio sábado, às 22h.

“Lamentamos profundamente a decisão. (…) ‘A Serbian Film’ é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais polêmicos de todos os tempos, e não sem razão: é uma obra que questiona os limites da representação cinematográfica e que lida com situações e temas absolutamente condenáveis”, diz a nota do RioFan, que, no entanto, nega que o longa contenha imagens explícitas de pedofilia ou necrofilia.

“Não há, sob qualquer ótica possível, apologia à violência sexual contra mulheres ou menores de idade no filme. São atos absolutamente grotescos e tratados como tal por uma obra que se insere numa tradição de filmes “extremos” – um subgênero do cinema de horror que lida com questões repulsivas de forma radical, com o intuito de buscar o choque e a reflexão nos espectadores”, diz ainda a nota divulgada pelos organizadores do evento, que classificam como uma “surpresa” o veto por parte do banco.

Preso o último criminoso de guerra sérvio

Foi preso na madrugada desta quarta-feira (20/7), na Sérvia, o criminoso de guerra Goran Hadžić, o último dos grandes nomes da lista de sérvios indiciados pelo Tribunal Penal para a ex-Iugoslávia, em Haia. Ele estava foragido há 16 anos e foi encontrado na aldeia de Krušedol, na Voivodina, a 60km ao norte de Belgrado.

Hadžić (pronuncia-se “ráditsch”, como se fosse a palavra ‘rádio’, só que com T chiado no final) era líder do movimento autonomista na Krajina (“cráina”; em servo-croata, “marca”, “região de fronteira”), uma parte da Croácia onde havia maioria étnica sérvia. Segundo o promotor sérvio para crimes de guerra, Vladimir Vukčević, o criminoso estava armado no momento da prisão, mas não tentou resistir.

“Hadžić assumiu uma identidade falsa, tendo documentos pessoais sob um outro nome”, disse ele, em entrevista coletiva citada pela rede sérvia B92.

Junto com ele, foi detido um homem não-identificado, suspeito de ajudar a escondê-lo. O promotor acredita que Hadžić, que era um simples comerciante até o começo da guerra, estava sob proteção de pessoas ligadas à hierarquia da Igreja Ortodoxa Sérvia.

A primeira pista de seu paradeiro surgiu quando ele teria tentado vender um quadro de Modigliani (1884-1920) para conseguir dinheiro e custear sua clandestinidade.

Goran Hadžić preso

Goran Hadžić preso

É sempre bom lembrar que, assim como Radovan Karadžić (líder civil, preso em 2008) e Ratko Mladić (comandante militar, preso em maio deste ano), os dois NÃO ERAM cidadãos da Sérvia. Eles eram cidadãos da antiga Iugoslávia e os crimes deles foram cometidos na Bósnia e na Croácia. O Estado sérvio (que era parte da Iugoslávia até 2003, assim como a Bósnia e a Croácia até 1991), oficialmente, não tinha nenhuma responsabilidade sobre os atos cometidos por eles. Mas todos foram encontrados em território sérvio.

A prisão desses três criminosos de guerra era uma exigência da União Européia para iniciar os procedimentos de adesão da Sérvia ao bloco – o que, no entanto, depende ainda de diversos fatores econômicos, legais e sociais aos quais o país deve atender, como todos os demais membros, e ainda está longe de conseguir.

MLADIĆ PRESO

O general Ratko Mladić, o criminoso de guerra mais procurado da antiga Iugoslávia, foi preso hoje de manhã na Sérvia, num povoado perto de Zrenjanin, na Voivodina. O anúncio foi feito pelo presidente da Sérvia, Boris Tadić.

Vou acrescentar mais informações a este post ao longo do dia.

Em tempo:

É UM ERRO dizer que ele foi “chefe do exército da Sérvia durante a guerra da Bósnia”, como fez o G1. Ele nunca teve nada a ver com a Sérvia nem com o Estado sérvio – que não participou daquele conflito -, mas sim com a entidade paraestatal dos sérvios residentes na Bósnia, por vezes chamada de “República Srpska”. Essa república não é a República da Sérvia; são duas entidades distintas que nunca foram a mesma.

Operação da PF prende 17 sérvios suspeitos de tráfico no Brasil

Uma operação da Polícia Federal brasileira prendeu 17 suspeitos de tráfico de drogas em seis estados brasileiros nesta quinta-feira (5/5). Todos são ex-iugoslavos, e a maioria é de nacionalidade sérvia. A operação, batizada de Niva (“campo” em várias línguas eslavas), desmantelou a quadrilha, que, segundo a PF, já estava “instalada e estruturada” no Brasil. Eles devem ser indiciados por tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico e financiamento do crime, e podem pegar até 15 anos de prisão.

A quadrilha estava muito disseminada na região norte, nos estados do Amazonas, do Pará e de Rondônia. Também houve prisões em São Paulo, Paraná, Espírito Santo. A maioria dos presos estava na lista de procurados da Interpol. A PF acredita que a base do grupo estava em São Paulo. A droga viria da Colômbia e seria enviada para a Europa em cruzeiros e navios de carga partindo dos portos desses estados (como Santos, Manaus, Vitória, Belém e Paranaguá), com tripulantes e passageiros participando do esquema como “mulas”.

[ATUALIZAÇÃO (5/5, 18h53): Na entrevista coletiva concedida agora à tarde em SP, a PF disse acreditar que a droga vinha da Bolívia, justamente onde já tinham sido descobertas quadrilhas de traficantes iugoslavos, como escrevi abaixo]

A Operação Niva é resultado de dois anos de investigação. Outras 35 pessoas já tinham sido presas em flagrante nesse período. Também já foram apreendidos 620 kg de cocaína e R$ 2 milhões. Ao todo, foram expedidos 60 mandados judiciais (32 de prisão mais 28 de busca e apreensão) com a ajuda de 126 policiais. A Justiça Federal de SP, que expediu os mandados, determinou que sejam seqüestrados bens da quadrilha, incluindo 31 imóveis, 15 carros de luxo e três embarcações, com valores estimados em R$ 16 milhões.

É a primeira prisão de grande porte de sérvios e ex-iugoslavos no Brasil. O mesmo já havia acontecido nos últimos dois anos na Bolívia, onde criminosos ex-iugoslavos também têm envolvimento na política (principalmente na região separatista de Santa Cruz de la Sierra, que faz fronteira com o Mato Grosso.

De acordo com a PF, o chefe da quadrilha foi preso no domingo (1/5) e o governo da Sérvia já pediu sua extradição. Ele é considerado um dos bandidos mais procurados do país. Na Sérvia, uma das maiores quadrilhas de tráfico de drogas é conhecida como “Gangue do Zemun” (subúrbio de Belgrado), e era liderada até recentemente pelo traficante Joca Amsterdam.

Em junho de 2010, durante a visita do então chanceler Celso Amorim a Belgrado, o Brasil e a Sérvia assinaram vários acordos bilaterais – entre eles, cooperação policial e a isenção recíproca de visto.

Há quatro meses, um cidadão sérvio foi preso na região do porto de Santos, acusado de latrocínio em seu país natal. Mas, até agora, não há ligações divulgadas entre esse caso e o da quadrilha de traficantes.

O Yugoboy está acompanhando a apuração da mídia e a investigação policial. Mais detalhes serão publicados à medida que forem divulgados.

Uma homenagem emocionante à Hollywood do Leste

Cinema Komunisto

Cinema Komunisto

Durante quatro décadas, quando Tito estava no poder, a Iugoslávia foi não só um pólo de produção cinematográfica inigualável no Leste Europeu, como também serviu de locação para diversas filmagens de títulos hollywoodianos, com astros como Orson Welles, Richard Burton, Anthony Hopkins, Sophia LorenYul Brynner, Peter UstinovSidney Poitier e vários outros. Isso se deveu muito ao fato de o marechal, pessoalmente,  ser um cinéfilo de carteirinha, mas também à enorme variedade de paisagens do país – onde se encontravam tanto praias cristalinas quanto montanhas geladas e amplas planícies verdejantes.

Eu já sabia de parte disso graças ao Nikola Matevski. Mas muitas histórias e detalhes da saga do cinema iugoslavo estão no documentário Cinema Komunisto, que estreou em 2010 e passou no Brasil no festival É Tudo Verdade de 2011, no final do mês passado, tanto no Rio quanto em São Paulo. Não consegui ver, mas meus amigos que viram disseram que é lindo e saíram chorando.

O filme, dirigido por Mila Turajlić, inclui trechos de mais de 60 longas-metragens e traz histórias como a do projecionista Leka Konstantinović, que durante 32 anos exibiu filmes para Tito na sala de cinema pessoal do marechal – sem poder repetir nenhum, jamais. A relação que os dois desenvolveram remete a uma espécie de “Cinema Paradiso” da vida real – daí a brincadeira do título. A trilha sonora, pelos trechos que se pode escutar no site oficial, também é belíssima – e pode ser um empurrãozinho para ter levado tantos espectadores às lágrimas.

Outro personagem é Gile Djurić, o mantenedor do arquivo e dos estúdios do outrora grande Avala Films, uma espécie de Atlântida de Belgrado. Nas palavras do próprio press-release do filme, o que se pode fazer hoje é explorar ” as ruínas dos cenários dos filmes esquecidos e conversar com diretores, produtores, agentes” sobre como, graças a um apoio irrestrito do Estado, o cinema iugoslavo pôde chegar longe.

Cinema Komunisto também debate o papel do cinema na construção da identidade de um país que, na prática, era uma colcha de retalhos multiétnica e com diversidade religiosa e lingüística. Mas, nas telas, eram todos iugoslavos, levados a se identificar com os épicos de partizans – filmes sobre as guerrilhas que expulsaram os nazistas e se tornaram um gênero próprio do cinema iugoslavo. Embora a Iugoslávia não exista mais no mapa-múndi, ainda sobrevive na forma da fantasia cinematográfica produzida sobre ela.

Ou, como sugere o slogan do filme:  ”Quando a História tem um roteiro diferente dos seus filmes, quem não inventaria um país para se iludir?

Os iugoslavos, sim.

Cartaz do documentário numa rua de Belgrado

Cartaz do documentário numa rua de Belgrado

(O filme ganhou uma menção honrosa no É Tudo Verdade. Resta torcer para o filme entrar em circuito no Brasil ou ser lançado logo em DVD)

Todo inferno é pouco para Toninho Bufunfa

Na sexta-feira passada, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, em Haia, condenou a 24 anos de prisão o criminoso de guerra croata Ante Gotovina (pronuncia-se “goTÓvina“, com tônica no ).  Foi a primeira condenação do tribunal de Haia para um alto comandante do lado croata do conflito – o que já tinha acontecido com líderes bósnios, albaneses e principalmente sérvios.

Gotovina é o equivalente croata ao Ratko Mladić sérvio, em termos de grau de atrocidades por eles comandadas e de high-profile entre os criminosos de guerra do conflito de 1991-1995. Só que Mladić ainda está foragido, enquanto Gotovina foi capturado em 2005 nas Ilhas Canárias, possessão da Espanha na costa da África, em uma operação conjunta de inteligência da União Européia com apoio do então governo da Croácia. Está preso há 6 anos e, portanto, tem mais 18 a cumprir.

Ante Gotovina com o brasão croata no quepe

Ante Gotovina com o brasão croata no quepe

Mas há uma diferença básica entre as atitudes das populações balcânicas em relação a esses dois criminosos: enquanto na Sérvia - pelo menos em Belgrado e nas cidades – as pessoas se envergonham ao falar de Mladić (ao ter de reconhecer que estupros, mutilações e assassinatos coletivos foram cometidos em nome delas, ou de uma contestável “nacionalidade sérvia”), na Croácia… bem, na Croácia a maioria considera Gotovina um herói nacional.

Sim, um herói nacional. Quando estive em Zagreb, fui a uma loja de lembrancinhas ao lado da catedral principal da cidade (Marijini Uznesenje, ou Nossa Senhora da Assunção) e me deparei com algo que derrubou meu queixo: um chaveirinho com a imagem de um Gotovina sorridente, uniformizado. Sem conseguir disfarçar meu choque, olhei, mudo, para a balconista, que me perguntou (em inglês): “Você sabe quem é?“. Ainda mudo, confirmei. “He’s our national hero.

Nunca, mas nunca que em um estabelecimento equivalente em Belgrado que se encontraria um chaveirinho de Mladić. No Kosovo, onde os sérvios estão de fato acuados e militarmente reprimidos, sim. Em zonas rurais, vilarejos onde algumas mentalidades retrógradas imperam, também. Mas aquilo era a capital do país, bem no coração turístico. Muito mal comparando, seria como se as lojinhas de souvenirs no Corcovado vendessem chaveirinhos de Filinto Müller, Sérgio Fleury ou Sebastião Curió. Ou, melhor, se perto do Portão de Brandemburgo, em Berlim, se vendessem quinquilharias com as efígies de Goering, Himmler, Goebbels e outros.

Ante Gotovina foi responsável pela Operação Tempestade (Operacija Oluja, em servo-croata), a ofensiva croata-católica contra os sérvios da República da Krajina (ou “Marca”), região habitada por sérvios mas formalmente inserida no território da Croácia (vale lembrar que as fronteiras internas iugoslavas foram desenhadas intencionalmente para não corresponder às áreas ocupadas pelas etnias). Na ação militar – com apoio tático e de treinamento dos EUA -, cerca de 700 combatentes sérvios foram mortos (contra menos de 200 croatas), 4 mil sérvios foram feitos prisioneiros (dos quais 374 foram assassinados depois de presos, em circunstâncias como fuzilamentos, esquartejamento ou queimados vivos) e 90 mil sérvios foram expulsos, tornando-se refugiados. Foi limpeza étnica.

Entre as acusações formais feitas contra Gotovina em Haia, estavam assassinato, perseguição e deportação forçada de civis e violação de leis da guerra (como pilhagens e torturas de prisioneiros), todos considerados crimes contra a humanidade. Ele alegou inocência em todos os casos. A defesa dele no tribunal contou com nomes acostumados a vitórias em grandes processos internacionais, como Greg Kehoe (o promotor no “julgamento” de Saddam Hussein) e o irano-canadense Payam Akhavan, ex-assessor da promotoria no próprio tribunal de Haia (que, por isso mesmo, deveria contar com informações privilegiadas). Mesmo assim, foi condenado. Sinal de que as provas eram contundentes.

Mas o homem Ante Gotovina é um personagem fascinante. Católico fervoroso, mercenário por vocação, mulherengo inveterado, político e bon vivant, ele é muito mais complexo que a imagem de “carniceiro dos Bálcãs” atribuída aos criminosos de guerra daquela parte do mundo. É preciso lembrar que, antes de ser croata, ele nasceu como iugoslavo – mais especificamente, numa ilha da Dalmácia, o atual litoral croata no Mar Adriático. Deixou o país ainda adolescente para ser marinheiro e depois alistou-se na Legião Estrangeira francesa. Recebeu treinamento militar, tornou-se paraquedista e parte da tropa de elite da França. Lutou na África (Congo, Djibouti e Costa do Marfim) e foi condecorado. Ao dar baixa, passou a trabalhar como guarda-costas e matador de aluguel em Paris. Fez a segurança pessoal de Jean-Marie Le Pen, o líder protofascista francês, e passou a agir em operações paramilitares contra sindicatos.

Procurado por assassinato, roubo e extorsão, saiu fugido da França e veio para… a América do Sul. Encontrou trabalho ensinando o que sabia: treinou grupos armados de direita na Argentina e na Colômbia, onde ensinou as direitistas AUC a combater as FARC com mais eficácia. Apaixonou-se e casou-se com a jornalista colombiana Ximena Dalel, com quem teve uma filha, também batizada Ximena.

Com o início da guerra civil iugoslava, em 1991, Gotovina se apressou em voltar pra terra natal, de onde tinha saído 15 anos antes. Destacou-se nos primeiros combates, na Eslavônia (nordeste da Croácia, fronteira com a Sérvia, onde ficam Vukovar e Osijek), e logo foi remanejado para o principal teatro de operações, na Krajina (pronuncia-se Craina). Foi lá que obteve suas maiores vitórias em combate e foi alçado à patente de general, às custas de atrocidades contra muçulmanos e sérvios.

Na sexta-feira, a leitura da sentença foi acompanhada pela população croata com telões na praça principal de Zagreb. A condenação foi recebida com vaias. A primeira-ministra da Croácia, Jadranka Kosor, criticou Haia e foi recepcionar no aeroporto o outro criminoso, Ivan Čermak, que foi absolvido e voltou pra casa. Já na Sérvia, a sentença contra Gotovina foi recebida com alívio, principalmente por parte dos refugiados que ele expulsou de suas terras e hoje vivem de ajuda alheia em Belgrado. Mas não houve comemoração. Isso dá uma medida dos diferentes sensos de responsabilidade que cada sociedade ex-iugoslava adotou em relação ao conflito.

Se fosse um personagem de novela brasileira, seria algo como um chefão do tráfico, comandante de milícia ou capitão do cangaço, conhecido como “matadô” – e, mesmo assim, admirado pela comunidade. Fosse um mafioso de Chicago, seria provavelmente Tony Cash. A tradução do nome – Ante é a forma servo-croata de Antônio, e num apelido ficaria Tonico ou Toninho; já Gotovina é uma palavra vulgar para dinheiro, grana, bufunfa – já daria um caráter ao mesmo tempo farsesco e temível. Seria um Toninho Bufunfa, bandido de pouco escrúpulo e alta periculosidade – que, para o bem dos Bálcãs e da paz no mundo, vai passar os próximos 18 anos atrás das grades.

O testamento de Gaddafi

Tito recebe Gaddafi em Belgrado, 1973

Tito recebe Gaddafi em Belgrado, 1973

Gaddafi (ou Gadhafi, ou Qathafi, ou Kadafi, ou Kaddafi, ou como queiram) foi um dos líderes do Movimento Não-Alinhado e um aliado circunstancial da Iugoslávia de Tito, mais por sua ligação estreita com Nasser (esse, sim, um reformador de esquerda) do que por afinidade ideológica. O regime líbio é controverso em muitíssimos sentidos, e pode não ser tão socialista quanto sugere o nome oficial do país (A Grande Jamahiriya Popular Socialista da Líbia; “jamahiriya” em árabe quer dizer “república”, mas na teoria gaddafiana há toda uma diferenciação sobre a organização socio-política, exposta no Livro Verde, e inspirada na autogestão iugoslava). Mesmo assim, o que a Líbia está sofrendo agora é uma agressão da OTAN tão cruel e tão ilegal quanto foi a que a Iugoslávia sofreu em 1999, quando a mesma desculpa da “proteção a civis” foi usada, dissimulando o motivo real que é a remoção de governantes incômodos ao Ocidente.

Vale lembrar que Slobodan Milošević não foi derrubado com os bombardeios da OTAN em 1999, apenas no ano seguinte, pela força do próprio povo sérvio/iugoslavo. Da mesma forma, Gaddafi não deve cair agora,  e se houver qualquer mudança de regime na Líbia, ela só será legítima se for feita pelo próprio povo líbio. A intervenção estrangeira só causa mais destruição e morte do que a própria ditadura local. Trípoli e Belgrado são duas vítimas do imperialismo que não acabou no século XXI. As populações desses países, e não seus ditadores, são as que mais sofrem. Por isso, é importante ler o outro lado. É essa a contribuição que este blog tenta dar, postando a minha tradução para o discurso que Gaddafi fez na semana passada ao povo da Líbia.

Lembranças da Minha Vida

Muammar Gaddafi

Por 40 anos, ou mais, não lembro, fiz tudo que eu pude para dar ao povo casas, hospitais, escolas e, quando passavam fome, dei comida. Transformei Bengási de deserto em uma plantação. Resisti aos ataques daquele caubói Reagan. Quando ele matou minha filha adotiva órfã, estava tentando me matar. Em vez disso, matou aquela criança inocente.

Depois, ajudei meus irmãos e irmãs da África com dinheiro para a União Africana. Fiz tudo que pude para ajudar as pessoas a entender o conceito de democracia real, pelo qual comitês populares governam nosso país, mas nunca bastava. Como alguns me disseram, até pessoas que têm casas com dez quartos, ternos novos e mobília nunca estão satisfeitas. Como são egoístas, querem mais, e diziam aos norte-americanos e outros visitantes que precisavam de “democracia” e “liberdade”, nunca percebendo que esse era um sistema assassino, no qual o cachorro maior come os demais. Mas eles estavam deslumbrados com essas palavras, sem nunca se dar conta de que, nos EUA, não há remédio de graça, casa de graça, educação de graça nem comida de graça – a não ser quando as pessoas têm de implorar e fazer longas filas para ganhar sopa.

Não. Não importava o que eu fizesse, não era o bastante para alguns.

Mas, para outros, era sabido que sou o filho de Gamal Abdel Nasser, o único verdadeiro líder árabe e muçulmano que tivemos desde Saladino, quando recuperou o Canal de Suez para seu próprio povo, como eu recuperei a Líbia para o meu. São os passos dele que tento seguir, para manter meu povo livre da dominação colonial – de ladrões que roubariam de nós.

Agora, estou sob ataque da maior força da história militar. Meu pequeno filho africano, Obama, quer me matar para roubar a liberdade do nosso país, para roubar nossa habitação gratuita, nossa saúde gratuita, nossa educação gratuita, nossa alimentação gratuita, e substituí-las com ladroagem no estilo americano, chamada de “capitalismo”.

O velho marechal e o então jovem coronel

O velho marechal e o então jovem coronel


Mas todos nós no Terceiro Mundo sabemos o que isso quer dizer. Significa empresas mandando nos países, no mundo, e pessoas sofrendo. Assim, não há alternativa para mim. Preciso marcar minha posição. E, se Deus quiser, morrerei seguindo seu caminho, aquele que tornou nosso país rico com plantações, comida e saúde, e até nos permitiu ajudar nossos irmãos e irmãs africanos e árabes, trabalhando aqui conosco, na Jamahiriya Líbia.

Não desejo morrer, mas se chegar a isso, para salvar esta pátria, meu povo, todos os milhares que são meus filhos, então que seja.

Que este testamento seja a minha voz para o mundo – que enfrentei os ataques cruzados da OTAN, enfrentei a crueldade, enfrentei a traição, enfrentei o Ocidente e suas ambições coloniais, e que enfrentei com meus irmãos africanos, meus sinceros irmãos árabes e muçulmanos, como um farol. Enquanto outros estavam construindo castelos, eu morava numa casa modesta, e numa tenda. Nunca esqueci de minha juventude em Sirte. Não gastei nosso tesouro nacional com bobagens. E, como Saladino, nosso grande líder muçulmano, que resgatou Jerusalém para o Islã, peguei pouco para mim.

No Ocidente, alguns me chamaram de “louco”, “maluco”, mas eles conhecem a verdade e mesmo assim mentem. Sabem que nosso país é independente e livre, não sob as rédeas coloniais. Sabem que a minha visão, meu caminho, é e foi claro, e é pelo meu povo. E que vou lutar até meu último suspiro para nos manter fortes.

Que Deus Todo-Poderoso nos ajude a continuar fiéis e fortes.

Coronel Muammar Gaddafi

(traduzido, por mim, da versão em inglês do prof. Sam Hamod (Information Clearing House, EUA)

Gaddafi estaria usando mercenários da Sérvia

Se for verdade (e eu não duvido), isto é uma herança maldita da cooperação Sul-Sul do Movimento Não-Alinhado. As fontes são jornais e sites independentes que cobrem os Bálcãs, como o GlobalVoices, o BalkanInsight e esse Alo, além da CNN. O texto abaixo é tirado da Wikipedia, versão em inglês, e a tradução é minha:

 

A Iugoslávia, e mais tarde a Sérvia, estava entre vários países que forneceram armas à Líbia, tendo feito isto desde a era de Tito. Oficiais líbios receberam treinamento avançado na Sérvia ao longo das últimas três décadas. Em reação a relatos de que mercenários sérvios estariam lutando com as forças de Gaddafi durante o levante, o Ministério da Defesa da Sérvia negou que qualquer pessoal seu, da ativa ou da reserva, estivesse participando dos eventos na Líbia, e chamando as alegações de ‘estupidez total’. Entretanto, agências de mercenários da Sérvia entrevistadas pelo jornal Prothom Alo, de Bangladesh, declararam que mercenários sérvios que já trabalham pela África teriam sido os primeiros mercenários estrangeiros contratados por Gaddafi nos primeiros dias do conflito. Outros relatos da Lívia indicam a presença permanente de mercenários sérvios. Um economista líbio contou ao jornal The Telegraph da Índia  que pilotos sérvios estão pilotando os aviões que bombardeiam os manifestantes civis porque os pilotos líbios teriam se recusado a voar.

 

“Visitem a Sérvia: ela é a Europa fora da União Européia”

Relato de mais uma turista brasileira na Sérvia, postado no fórum Mochileiros.com, que esteve lá em setembro do ano passado. Não concordo com tudo (como assim “Belgrado não agrada à primeira vista”?! e compará-la com São Paulo é heresia!), mas fica mais forte a recomendação final que ela faz para que conheçam a Sérvia. Detalhe: ir de trem é uma vantagem, não desvantagem, para quem quer conhecer o país de verdade.

Re: Sérvia – Perguntas e Respostas

Mensagempor jacc » 23 Out 2010, 00:05

Estive na Sérvia em setembro último, valeu muito a pena. Ainda precisa de visto porque o acordo internacional entre Brasil e a Sérvia ainda depende de ratificação pelos respectivos parlamentos. É simples, porém, conseguir o visto. Só mandar o passaporte e os comprovantes exigidos para Brasília e eles devolvem com o visto. O único problema é que o visto é bem caro, gasta-se mais de 200 reais com isto.

Eu estava em Budapeste e tinha pensado em ir a Belgrado de trem, mas são 7 horas e a travessia da fronteira não é automática como no interior da União Européia. A Sérvia não a integra e por isto há parada para controle de passaportes, etc. Decidi ir de avião, passagem barata.

Quem chega a Belgrado de avião descobre que o aeroporto é bastante fora da cidade e há duas opções: negociar com os espertos taxistas ou pegar o ônibus 72 que te deixa no centro da cidade. O ônibus demora um pouco, mas o preço é quase de graça.

Belgrado não agrada à primeira vista. Impossível comparar com a beleza fácil de Praga, Viena ou Budapeste. É meio como São Paulo, assim, cinzenta, como já disseram aqui, mas, assim como a capital paulista, tem inúmeras atrações e é uma cidade interessantíssima, além de ser fácil e prático caminhar por ela.

Os restaurantes são ótimos e o preço é muito acessível. Como pontos turísticos da cidade recomendo ir andando até a Igreja de S. Sava (a segunda maior igreja ortodoxa do mundo, em construção), visitar outras igrejas ortodoxas, como a catedral, passar o fim de tarde no Castelo, com por do sol muito bonito. Vale muito a pena tirar uma manhã para ir até o Túmulo do Marechal Tito, fundador da Iugoslávia e no caminho ver prédios bombardeados pela OTAN em 1999 (Guerra do Kosovo). A noite é animadíssima e a rua de pedestres está sempre cheia de gente, sendo excelente a qualquer hora do dia ou da noite.

Recomendo muito ir até o bairro de Zemun (do outro lado do Rio Sava), parte bucólica de um lugar que já foi uma cidade separada e com forte influência austríaca.

Quem se dispuser aprender o alfabeto cirílico vai conseguir se orientar melhor com placas de ruas, ônibus, etc. O alfabeto é fácil, em alguns dias com treinos é possível já ler nele e vale a pena o esforço.

Enfim: visitem a Sérvia. Ela é a Europa fora da União Européia, com uma cultura riquíssima, culinária inesquecível, preços módicos e um povo muito receptivo.

Vem aí… o YUGOberry

Chego no Rio, minha cidade primeira, e vejo as ruas salpicadas de lojinhas decoradas em tons pastel, com cadeirinhas e paredes e balcões predominantemente brancos, abrigando gente “descolada” e de roupas leves, cabelos soltos, clima suave como uma novela de Manoel Carlos. É a moda do yogoberry, ou yogi, ou yogufrut, ou frozen yogurt, ou qualquer nome fresco que o valha para a mania do verão carioca 2011: o sorvete de iogurte com pedacinhos de frutas, balas, castanhas e outros doces.

Parece que em cada esquina tem uma lojinha do tipo, como nomes bem parecidos por serem variações sobre o mesmo tema. As classes médias e a classe alta da zona sul (e até da zona norte, porque vi um desses em plena Dias da Cruz, no Méier) se compraz no saboroso sabor sem culpa do iogurte, já que – reza a lenda – iogurte não engorda. Desde que não se entupa o copo com caldas de chocolate e amêndoas, claro.

Yogoberry

Yogoberry: frutas silvestres e iogurte, paixões balcânicas. Como ninguém ainda teve essa idéia antes?

Por puro trocadilho, pensei em levar o negócio pra Belgrado e fundar lá um YUGOberry. Postei isso no Twitter e no Facebook e tive um monte de likes.

E não é que, pensando bem, é uma piada com bastante potencial empreendedor?

Basta pensar um pouquinho. O yogoberry tem todos os ingredientes para ser sucesso no verão balcânico – onde as temperaturas, acredite, também passam dos 40 graus. As tradições de quitutes que já existem na Sérvia e nos Bálcãs contribuem, pois os balcânicos são loucos por iogurte (quem se lembra dos posts em que eu comentava sobre a mania de sempre beber iogurte puro com burek?). E, já que a idéia é colocar principalmente frutas  de bagas (berries, em inglês: morango, amora, framboesa, mirtilo, oxicoco, groselha…), por que não fazer isso onde essas frutinhas silvestres são locais, endógenas, parte da dieta nacional, e não extravagâncias importadas como aqui?

E, para o marketing, dá para aproveitar não só a proximidade do nome, com o devido trocadilho nostálgico, mas também a fascinação que sérvios, croatas, búlgaros, romenos e eslovenos têm com o clima tropical, o calor, a beach culture nas areias do Oceano Atlântico (porque o máximo que eles têm é o Mediterrâneo sem ondas). Basta dizer que é “um sabor de Ipanema à beira do Danúbio” que vai vender feito água.

Ou feito iogurte.

Poema: Retorno a Belgrado

Mladen Ćirić, grande amigo de Belgrado de quem tenho muitas saudades e co-autor de um dos três únicos dicionários bilíngües de Sérvio-Português, mandou-me de aniversário (foi em 29 de dezembro; eu sei, eu sei, sou um retardatário por natureza) um presente sem igual: um poema de Vasko Popa, “um dos maiores poetas sérvios” em seu dizer, na tradução para o português feita por ninguém menos que Aleksandar Jovanović, professor de Letras da USP e o principal tradutor de servo-croata para português, com quem já tive chance de trocar e-mails anos atrás.

O poema parece refletir o que eu e muitos brasileiros que estiveram em Belgrado sentimos com a saudade da cidade branca, a paixão avassaladora e a ânsia por voltar pra lá. Logo de um homem chamado Vasko, sérvio com nome de português… Deu calafrios.

 

RETORNO A BELGRADO


Aqui está esta cruz de água

Três patas de lobo me conduziram

 

Lavei o rosto no rio divino

Enxuguei-o nas vestes dos girassóis

Enroladas às torres

 

Plantei o cajado do pai

Na argila das margens

Para que floresça entre salgueiros
Parti rumo à grande porta

Aberta sobre mim no firmamento
Não sabia se a cidade branca descia

Das nuvens para dentro de mim

Ou se crescia do meu ventre para o céu
Retornei da jornada

Para dividir aqui na praça

As pedras maduras da mochila

Como a Folha noticiou a morte do Marechal Tito

A Folha de S.Paulo liberou acesso esta semana ao seu acervo desde o início do jornal, em 1921 (ainda com o nome de Folha da Manhã). São 90 anos de edições diárias digitalizadas na íntegra – um conjunto de valor inestimável para o jornalismo que, infelizmente, só estará aberto gratuitamente por período limitado, até decidirem fechar o conteúdo para assinantes.

 

Mas abri hoje e fui direto no dia 5 de maio de 1980, data da morte do Marechal Tito. Deu nostalgia (ou iugostalgia) de ver que houve uma época em que a Iugoslávia era destaque de primeira página na imprensa do Brasil.

Folha de S.Paulo - Morte de Tito (5/5/1980)

excerto da primeira página da Folha de S.Paulo de 5/5/1980: luto por Tito

Comédia MTV – Sérvia x Montenegro

O vídeo é meio velho, a piada mais ainda, e tá no YouTube pelo menos desde junho de 2010. Mas é tão engraçado, pra quem conhece as idiossincrasias da ex-Iugoslávia, que vale a pena postar aqui. Meu melhor amigo me mandou hoje e me escangalhei de rir. O mais impressionante é ver como o Marcelo Adnet deve ter pesquisado pra fazer o texto, porque tem dados e piadas-internas que só fazem sentido pra quem entende essas “balcanitudes”… Tipo, quem mais ia lembrar do Sandjak e de Novi Pazar? Sem contar que a pronúncia dele é perfeita.

 

Detalhe para o jogador pseudobósnio chamado Bureković. Hilário. :o )

 

Da “revolta árabe” à fragilidade nos Bálcãs

Reproduzido de Opinião e Notícia, 18/2/2011; que por sua vez cita The Economist como fonte.

 

Enquanto todo mundo olha para o Egito…


Observadores afiados notaram que alguns dos manifestantes que derrubaram o presidente egípcio usavam o símbolo do punho cerrado do Otpor, o movimento de resistência civil que ajudou a derrubar Slobodan Milosevic em 2000. Partes da imprensa sérvia, diz Florian Bieber, um acadêmico que trabalha em assuntos relativos aos Bálcãs, afirmaram que antigos ativistas do Otpor treinaram alguns dos grupos de oposição egípcios.

Com a atenção mundial voltada para os países árabes, a instabilidade política que tomou conta da porção ocidental dos Bálcãs foi altamente ignorada. No entanto, a turbulência na região é tão séria – e inclui demonstrações em Belgrado, Tirana e Skopje – que diplomatas e ministros se perguntam se a revolução egípcia poderia migrar para o norte a atingir os Bálcãs. Aqui vai um resumo dos acontecimentos mais recentes:

Kosovo

O Kosovo realizou eleições no dia 12 de dezembro, mas ainda não possui um governo. Após alegações de fraude em “escala industrial”, novas eleições terão de ser realizadas. Até uma aparente decisão nos últimos dias, os políticos do país haviam sido incapazes de assegurar as linhas básicas do acordo que permitiria a formação de um novo governo. No entanto, uma facção dentro do Partido Democrático do Kosovo, do primeiro-ministro Hashim Thaci, foi obrigada a abandonar suas insistências para que Jakup Krasniqi, o presidente em exercício, recebesse o cargo formalmente.

Behgjet Paccolli, um magnata, agora tenta se eleger presidente. Em troca, seu partido, a Nova Aliança de Kosovo, tomará parte na coalizão com Thaci. Paccolli é casado com uma russa, um fator que, dada a recusa de Moscou em reconhecer a independência do país, deixa alguns kosovares desconfiados.

Dois anos após a independência do Kosovo, Thaci nunca foi tão fraco politicamente. Sua imagem sofreu um enorme desgaste graças à disputa com Fatmir Limaj, o extrovertido ministro dos transportes, que possui bastante apoio dentro do partido. Internacionalmente, sua gestão foi devastada por um recente relatório do Conselho Europeu repleto de acusações contra ele, que a Eulex, a missão da UEE em Kosovo está agora investigando, em parte como consequência do fracasso de Kosovo no processo de integração europeia. Cinco dos 27 membros da UEE não reconhecem o Kosovo.

Macedônia

A situação na Macedônia é um pouco melhor. Nikola Gruevski, o primeiro-ministro, irá a Washington buscar apoio para suas tentativas de acelerar a integração com a UEE e a Otan, mas pode ser obrigado a ouvir bastante no encontro. Resolver a disputa de nomenclatura nacional com a Grécia, que já dura quase duas décadas, parece ser uma prioridade cada vez menor em Skopje, e a construção do pedestal que irá suportar uma estátua de Alexandre, o Grande segue cada vez mais rápida, garantindo novas revoltas na Grécia.

O grupo de oposição da Social Democracia se retirou do parlamento, e a Macedônia está paralisada pela saga da TV A1, cujas contas bancárias foram congeladas uma segunda vez pelos tribunais. Os oponentes de Gruevski afirmam que o governo está tentando calar o último bastião da liberdade de expressão no país. Os apoiadores do governo se referem aos protestos como “tolices sem sentidos”. Segundo eles, os tribunais estão simplesmente combatendo as evasões fiscais. Na verdade, os argumentos não contradizem um ao outro, e tudo aponta para uma eleição adiantada em junho.

Enquanto isso, um pequeno grupo de albaneses e macedônios travou uma batalha no castelo de Skopje no dia 13 de fevereiro, no qual o governo começou a construir o que diz ser um museu no formato de uma igreja. O problema é que o castelo está em uma porção albanesa, e, portanto, muçulmana, da capital. Quando os albaneses protestaram, afirmando que a estrutura estava sendo construída sobre um antigo sítio arqueológico ilírio, Pasko Kuzman, o arqueólogo-chefe afirmou que a construção seria interrompida. Mas as empreiteiras mandaram seus homens na calada da noite para continuar as construções, o que fez com que albaneses tentassem destruir a estrutura.

Albânia

Na Albânia, o primeiro-ministro Sali Berisha acusou a oposição de tentar realizar um golpe, após uma manifestação no dia 21 de janeiro, que tomou proporções horríveis quando a Guarda Republicana supostamente atirou nos manifestantes, matando quatro deles. A origem dos protestos foram acusações feitas pelo prefeito socialista de Tirana, Edi Rama, de que Berisha teria voltado ao poder em 2009, por meio de eleições fraudulentas. Ao contrário da Macedônia, a Albânia é um país-membro da Otan, mas seu caminho de integração com a UEE foi efetivamente paralisado.

Sérvia

O governo da Sérvia vive momentos dificílimos, mas ainda não afundou. Mladjan Dinkic, líder do G17+ e vice-primeiro-ministro da Sérvia, criticou abertamente seus colegas de governo do Partido Democrático do presidente Boris Tadic. No dia 14 de fevereiro, o primeiro-ministro Mirko Cvetkovic tentou tirá-lo do cargo. Dinkic renunciou, mas manteve o partido no governo.

Ninguém sabe dizer por quanto tempo o governo sérvio poderá se manter nessa situação precária. Tomislav Nikolic, líder do Partido Progressista Sérvio, de oposição, declarou que – a menos que novas eleições sejam convocadas antes do dia 5 de abril, ele convocará mais protestos em Belgrado.

Bósnia-Herzegovina

Por fim, a Bósnia-Herzegovina. Eleições foram realizadas no dia 3 de outubro, mas ainda não há um governo federal. Isso não chega a ser uma surpresa, já que o progresso em todas as questões, com exceção da integração à UEE está paralisado desde o fracasso das reformas constitucionais do “Pacote de Abril”. A rede Al-Jazeera recentemente anunciou planos de uma filial televisiva nos Bálcãs, sediada em Sarajevo e transmitindo no que chama delicadamente de “linguagem nacional”. Dado o papel da emissora no apoio às revoltas na Tunísia e no Egito, é possível compreender as preocupações diplomáticas.

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